Qual é a língua primordial? Uma possível resposta…

Esta é uma questão sobre a qual, indubitavelmente, todos aqueles que estudam áreas como a Linguística já se interrogaram. Se existe uma qualquer espécie de evolução na raça humana, terá existido uma altura em que todos os humanos falavam uma mesma língua, mas qual seria essa língua primordial? Não é uma questão fácil, e não proponho resolvê-la aqui, mas na Antiguidade um faraó egípcio interrogou-se sobre este tema, e, como nos informa Heródoto no segundo livro das suas Histórias, tentou descobrir a resposta.

 

Para tal, pegou em dois recém-nascidos e fez com que fossem criados sem nunca ouvirem qualquer língua, sendo só visitados por uma mulher que, diariamente, os alimentava. Um dia, começaram a falar, dizendo “bekos”. Sabendo disto, o faraó decidiu investigar a que palavra pertencia essa língua, e visto que “bekos” significava “pão” em Frígio, o monarca foi levado a pensar que, então, essa era a primeira de todas as línguas, aquela com que nascemos.

 

Mas estaria ele correcto? Se esta é a versão mais famosa de toda a história, e nos poderia levar a conclusões precipitadas, convém acrescentar que os autores posteriores revelam menos certezas. Segundo, pelo menos, um deles, a mulher que alimentavam os dois pequenos humanos tinha falado com eles, pelo que toda a experiência estava adulterada… mas mesmo que assim não o fosse, importa relembrar que este é um mito, podendo ter algum fundo de verdade, mas que não deve ser usado para acreditar que o Frígio era, mesmo, a primeira das línguas, algo que é, nos nossos dias de hoje, fácil de refutar recorrendo a casos como os das crianças-lobo.

O mito de Niobe

Na sua versão mais conhecida, o mito de Niobe é o de uma mãe que, ao ter 14 filhos, sete de cada sexo, se considerou superior à deusa Leto (que só tinha dois gémeos, Apolo e Artémis), insultando-a com essas palavras. Então, essa figura divina vingou-se pedindo aos próprios filhos que matassem os muitos rebentos de Niobe, levando-a a uma enorme tristeza e ao suicídio.

Niobe abraçada a uma filha

Parténio, porém, conta uma versão do mito que é ligeiramente diferente. Se também aqui Niobe ofende Leto, essa é uma disputa que parece dever-se à beleza das crianças, mais do que ao seu número. A vingança dos deuses (que, aqui, não são identificados explicitamente) tem lugar ao longo de três momentos – o marido desta figura morre durante uma caçada; o seu pai apaixona-se por ela; e quando esta filha o rejeita, esse invulgar pai convida os netos para um banquete e queima-os vivos. É na sequência dessas acções que, também nesta versão, Niobe se suicida, atirando-se de um rochedo, e que o pai desta também acaba por se suicidar de forma desconhecida.

 

Este é, portanto, mais um daqueles instantes em que a Mitologia Grega instava a uma prudência face aos deuses, já que a sua vingança, quando eram desafiados, podia ser terrível, como é aqui tão bem visto, sendo esta até uma moral muito repetida nos mitos gregos, de que esta figura do mito de Niobe é um excelente exemplo.

O problema matemático de Héracles

Heracles the mighty was questioning Augeas, seeking to learn the number of his herds, and Augeas replied “About the streams of Alpheius, my friend, are the half of them; the eighth part pasture around the hill of Cronos, the twelfth part far away by the precinct of Taraxippus; the twentieth part feed in holy Elis, and I left the thirtieth part in Arcadia; but here you see the remaining fifty herds.”

fonte

 

Fica a questão, para quem quiser pensar nisto, ou apenas tentar resolver um problema matemático de Héracles, provindo ainda de tempos da Antiguidade…

Os mitos de Lâmia, Górgone, Efialtes e Mormolica

Os mitos de Lâmia, Górgone, Efialtes e Mormolica não são, hoje em dia, certamente muito conhecidos. Se ainda hoje temos, seja para assustar as crianças ou para as incitar a seguir algum bom caminho, histórias como as do Papão, do desconhecido que oferece doces em troca de “nada” (ou que carrega o saldo dos telemóveis, que os tempos têm mudado!), do Pai Natal e da Fada dos Dentes, etc., elas não são totalmente novas. Histórias como essas também já existiam na Antiguidade, e a maior dificuldade que temos, em relação a elas, é o facto dos vários autores nunca as contarem de uma forma muito directa, provavelmente porque já seriam do conhecimento geral. Estrabão, na sua obra, até faz uma referência casual a quatro dessas figuras, mas, infelizmente, também não nos diz de que forma estas influenciariam as crianças. Eram elas a Lâmia, a Górgone, Efialtes e Mormolica.

 

A primeira destas já cá foi falada por várias vezes, mas sabemos que também era suposto ser uma figura que comia as crianças, por ela própria ter antes perdido as suas. A Górgone (que não deve ser confundida com a Medusa) é uma figura que acabaria por se desdobrar em três irmãs, mas sobre a qual pouco sabemos, na sua forma original. Efialtes era um dos gigantes que, juntamente com o irmão – juntos, tomavam o nome de Aloídas – tentou empilhar várias montanhas para chegar ao Olimpo, sendo precipitado por um dos relâmpagos de Zeus. Sobre Mormolica, sabemos que era um espectro que assustava as crianças, mas pouco ou nada mais.

 

Se, baseados nas linhas desse autor, até podemos aceitar que estas quatro figuras tinham, de alguma forma, a função de, como as nossas, assustar as crianças ou incitá-las a boas acções, talvez nunca venhamos a saber as histórias infantis associadas a cada uma delas, que, pelo menos de uma forma parcial, até poderiam ter sido diferentes dos mitos descritos acima.

Uma possível origem da história de Cinderela

Estrabão conta-nos a história de uma Rodópe, figura que poderá ter sido uma das origens da história de Cinderela.

 

Quando essa mulher tomava banho num rio, uma águia roubou-lhe um peça de calçado, que depois largou no colo de um rei. Dada a estranheza do episódio, e a beleza desse calçado, o rei mandou decidiu procurar a pessoa a quem pertencia, e quando acabou por a encontrar, casou com ela.

 

Se também são muitos mais os elementos que compõem a história de Cinderela, nas suas versões mais modernas, a ideia de encontrar alguém exclusivamente através de uma peça de calçado que perdeu é singular ao ponto de nos poder fazer pensar que, muito provavelmente, esta pequena história poderá ter sido uma das que, séculos mais tarde, a viria a inspirar.