O mito de Cambles

Este mito de Cambles é muito pouco conhecido, para o qual até só existia uma única fonte, as Histórias da Lídia de Xanto, e essa obra já não nos chegou, sendo a referência apenas preservada num outro texto.

 

Cambles, de uma fome insaciável, devora a esposa. Só disso se apercebe no dia seguinte, quando, ao acordar, tira a mão da antiga mulher da sua própria boca.  Depois, face ao horrendo acto que perpetrou, suicida-se.

 

Esta é uma história muito pequena (mesmo na fonte que ainda a refere só sobrevive em cerca de três pequenas linhas), mas que também nos demonstra a importância de não cair nos excessos. Claro que, hoje em dia, alguém dificilmente acabará por devorar outro ser humano, mas ainda se entende a ideia que todo o mito nos pretende passar.

O mito de Laodâmia e Protesilau

As figuras do mito de Laodâmia e Protesilau estão tão intimamente ligadas que me pareceria aqui injusto separá-las aqui:

 

Protesilau é famoso por ter sido o primeiro grego a sair dos navios, em Tróia, e como dizia uma profecia, foi também o primeiro a ser morto. A história poderia ter acabado por aqui, mas face ao grande amor que Laodâmia tinha por esse seu marido, pediu aos deuses que o deixassem ver uma última vez, por três horas, para se despedir dele. Os deuses permitiram-no, por razões desconhecidas, e com ajuda de Hermes Laodâmia pode ver Protesilau durante esse limitado tempo. Depois, passadas essas horas, suicidou-se, incapaz de viver sem o homem que tanto amava.

Higino, nas suas Fábulas, adiciona alguma informação ao mito, dizendo que Laodâmia viveu algum tempo com uma estátua do marido, após a morte deste, e que quando os familiares tentaram queimar a estátua, também a mulher se lançou às chamas, morrendo nesse seu derradeiro acto.

 

Este é, muito certamente, um dos mitos mais invulgares de que me consigo lembrar, por mostrar a figura de uma mulher e esposa tão fiel, tão ligada ao marido, que, como qualquer ser humano, anseia por ver um falecido uma última vez, desejar despedir-se dele. E, quando, por razões que nunca ficam muito claras, lhe é concedida essa oportunidade, compreende que esse último adeus não é suficiente, e acaba por morrer só para se poder juntar ao marido que tão profundamente amava.

 

Laodâmia é, nesse ponto, cada um de nós, quando confrontados com a morte de alguém que amamos. O que não daríamos nós, se tal fosse possível, para ter só um último momento com essa pessoa? O que faríamos, só para fitar os olhos do falecido, para lhe ouvir a ténue voz, uma última vez? Mas, tal como nos ensina este mito, mesmo que essa fosse uma real possibilidade, seria tão cruel e insuficiente para nós como o foi para a mulher do falecido Protesilau.

Os mitos de Aurora, Titono e Mémnon

Apesar de não serem muito conhecidos, os mitos de Aurora, Titono e Mémnon (ou Mêmnon) estão intimamente ligados, razão pela qual opto por juntá-los nestas linhas.

 

Titono era um mortal por quem a deusa Eos (ou a Aurora, na versão latina) se apaixonou, que a deusa até perseguiu, e de quem teve pelo menos um filho, Mémnon. A paixão da deusa por Titono era tal que esta pediu a Zeus que lhe desse a imortalidade; esta foi concedida, mas sem o dom da juventude eterna a figura foi envelhecendo, acabando por ser transformada numa cigarra.

 

Em primeiro lugar, importa frisar o carácter muito único de Titono, sendo ele um dos poucos mortais de quem é dito que uma deusa o perseguiu, sendo, muito provavelmente, esse carácter a razão pela qual lhe foi, mais tarde, atribuída a imortalidade. Porém, esse também é um dom que aqui não surge sem uma advertência – a imortalidade, sem uma juventude eterna, pouco interesse teria, e alguns autores modernos até dão um elemento muito poético a esta transformação, fazendo dele um homem que, ao envelhecer dia após dia, acaba por mirrar até se tornar uma cigarra.

Aquiles e Mémnon em combate

Quanto a Mémnon, a história já é um pouco mais longa. Depois da trama da Ilíada, depois do episódio de Pentesileia, a figura surge em batalha com o seu exército. Vão derrotando vários dos seus opositores, mas eventualmente é este herói que mata Antíloco, companheiro de Aquiles após a morte de Pátroclo (dando razão à linha na Odisseia em que é dito que a morte desse filho de Nestor surgiu “do filho da Aurora”). Depois, Mémnon defronta Aquiles – um longo confronto, que também marca a única vez que o filho de Tétis encontra um seu igual no campo de batalha – e este segundo mata-o.

Em último lugar, algo de singular acontece também com esta figura; é dito que após a morte a mãe, Eos, fez algo com o corpo do filho, mas esse é também um “algo” que diverge de versão para versão, sendo ele transformado em pássaro, levado para uma ilha, divinizado, ou transformado numa estátua (se a estátua ainda hoje existe, e continua localizada no Egipto, já não produz som ao nascer do dia, como nos é dito que fazia originalmente e em honra da mãe).

Os Colossos de Mémnon

Contudo, não podemos deixar de ter em conta que estas são figuras sobre as quais já pouco sabemos. O mito de Titono chega-nos em vagas alusões feitas por diversos autores, e a figura de Mémnon, que teria o seu papel principal na perdida Etiópida, parece ainda ser conhecida por muitos autores da Antiguidade, que, ainda assim e com uma única excepção, pouco relevo lhe dão.

O mito de Fedra

A sabedoria popular ainda hoje nos fala de todos os muitos perigos de uma mulher rejeitada, de que o mito de Fedra é um bom exemplo. Igualmente famoso, dentro do mesmo tema, é o mito de Medeia, mas não é o único, já que também a figura de Fedra nos apresenta uma situação semelhante:

Fedra e Hipólito

Fedra era esposa de Teseu. Apaixonou-se por Hipólito, filho ilegítimo do marido, e propôs-lhe a consumação desse amor. Hipólito rejeita-a, até por ter feito um voto de castidade, e na sequência dessa rejeição Fedra acusa, falsamente, o filho adoptivo de violação. Depois, mata-se, com a razão e a cronologia dessa morte a dependerem da versão do mito. A versão de Eurípides coloca-a antes da morte de Hipólito, sendo a “violação” anunciada por carta, enquanto que na versão de Séneca esse é um suicídio que sucede a morte de Hipólito e a revelação da verdade. Porém, os vários autores nunca deixam de mencionar que tanto Hipólito como Fedra acabam mortos.

 

Um elemento que sempre me fascinou neste mito é o facto de ser um dos mais antigos exemplos da figura da madrasta vingativa, que ao longo dos séculos se tornaria muito popular através de histórias como a da Cinderela, e em que uma madrasta, por uma ou outra razão, está contra um dos filhos do marido. No entanto, este também é aqui um elemento secundário, já que o inesperado amor de Fedra, a rejeição de Hipólito, e a vingança final da esposa de Teseu, são quase sempre atribuídas, de alguma forma, às acções dos deuses.

 

Assim, o mito de Fedra é, acima de tudo resto, um mito sobre as consequências de um amor rejeitado. É, aqui, um amor ilícito, mas não deixa de nos apresentar a figura de uma mulher rejeitada por um homem, figura que procura inflingir tanta dor quanto possível a quem o rejeitou, e quando Teseu expulsa o seu filho da cidade, é precisamente isso que a madrasta consegue, acabando até por lhe causar a morte. Também Medeia, rejeitada, procura inflingir uma dor semelhante a Jasão, e essa é uma constância que é mantida em muitos outros textos que foram sendo escritos ao longo dos séculos. Portanto, e até porque a sabedoria popular raramente se enganada, tenham cuidado ao rejeitarem uma mulher…

O mito grego do deus Proteu

O mito grego do deus Proteu é relativamente fácil de resumir em muito poucas linhas, até porque a sua participação na Mitologia Grega é muito breve, mas nem por isso menos significativa.

Proteu transformava-se, tal como Tétis

Proteu, cuja paternidade parece variar mas que nunca deixa de ser um importante deus marinho, é uma figura com a dupla capacidade de prever o futuro e de mudar a sua forma física. Quando, na Odisseia, Menelau se aproxima dele em busca de alguma informação que procurava, o deus vai mudando a sua forma, sempre com a intenção de assustar ou afastar quem o interpelava, mas o irmão de Agamémnon não deixa de o agarrar, acabando este deus, no final, por desistir de toda a batalha e revelar a informação pretendida pelo famoso esposo de Helena.

 

O elemento mais famoso deste mito de Proteu é certamente a capacidade do deus em se transformar em toda a espécie de criaturas e formas. Adoptou a forma de uma chama, um leão, etc., sempre com a intenção de afastar de si quem o procurava. Algo de semelhante também aparece no mito de Tétis, o que poderá levantar uma questão – acreditando que os outros deuses marinhos tinham, também eles, capacidades semelhantes, de onde vem toda essa ideia? Será que nasceu da capacidade que a própria água tem para adoptar todas as formas? É certamente possível que sim, e até existem algumas breves alusões a essa fluidez na cultura da Antiguidade, mas não devemos esquecer que os restantes deuses também se transformavam – basta recordar o famoso caso das transformações amorosas de Zeus! O que acontece, tanto aqui como no caso de Tétis, é um conjunto de transformações destinadas a afastar alguém, sendo provável que todos os outros deuses também o conseguissem fazer, apesar de nunca terem sentido uma necessidade real para tal…