O mito de Odisseu/Ulisses, e a “Odisseia” de Homero

Se a figura de Odisseu/Ulisses dificilmente pode ser separada da conquista de Tróia (até foi ele que teve a ideia do famoso cavalo), a figura também nos é muito mais conhecida através da Odisseia de Homero, obra que narra o retorno do herói a casa. Como sucedeu no caso da Ilíada, não irei resumi-la, mas posso recordar o que Aristóteles diz em relação a ela, na sua Poética. Também aqui, a citação provém de uma tradução brasileira:

 

Um homem afastado de sua pátria pelo espaço de longos anos e vigiado de perto por Poseidon acaba por se encontrar sozinho; sucede, além disso, que em sua casa os bens vão sendo consumidos por pretendentes que ainda por cima armam ciladas ao filho deste herói; depois de acossado por muitas tempestades, ele regressa ao lar, dá-se a conhecer a algumas pessoas, ataca e mata os adversários e assim consegue salvar-se. Eis o essencial do assunto. Tudo o mais são episódios.

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Poderá parecer-nos, hoje, que esta descrição é demasiado redutora do encanto de toda a obra, mas difícil seria a tarefa de argumentar que Aristóteles não tinha razão quando escreveu essas palavras – se é a “raiva de Aquiles” que mais caracteriza a Ilíada, é inegável que também é a figura de Odisseu/Ulisses, e a sua jornada de volta a casa (ah, perdão, o seu “nostos”, para quem prefere essas coisas), que caracteriza esta outra obra do famoso autor, e “tudo o mais são episódios” que o vão aproximando ou afastando desse objectivo final.

 

Quando, então, o herói retorna a casa e vence os seus adversários, a trama de Homero termina, mas não é aí que acabam as aventuras da errante personagem. Como um resumo do Ciclo Épico nos indica (e existia até uma peça, hoje perdida, de Sófocles que abordava este tema), o herói viria, depois, a conhecer um filho que teve com Circe, de nome Telégono, e este, desconhecendo a identidade do pai, acaba por matá-lo.

O mito de Ifigénia

O mito grego de Ifigénia é-nos particularmente famoso de duas peças de teatro da autoria de Eurípides, nomeadamente Ifigénia em Áulide e na Táurida, que nos apresentam dois momentos diferentes da história dessa mesma figura. Nesse sentido, resumimos aqui a sua trama mitológica apenas de uma forma muito breve:

 

O rei Agamémnon tinha ofendido Artémis, deusa da caça. Como tal, essa divindade fez com que todos os ventos cessassem, impedindo a partida marítima do exército aqueu para Tróia, até que o monarca aceitasse dar a vida da sua própria filha em troca de poder prosseguir com o seu empreendimento. E ele até acaba por fazê-lo, ou, pelo menos, parece acabar, no culminar da primeira peça, quando sacrificou a sua própria filha num altar…

Depois, na segunda peça, que toma lugar pelo menos 10 anos mais tarde, acaba por se descobrir que, mais do que falecer naquele que teria sido o seu derradeiro altar e pelas mãos do próprio pai, Ifigénia foi, por obra e piedade dos deuses, substituída por um animal e transportada para uma terra distante, onde acabará por vir a reencontrar o próprio irmão…

Ifigénia a subir aos céus

Face a esta trama muito geral, uma questão impõe-se: será que existiu, nos tempos da Antiguidade, alguma versão do mito em que Ifigénia faleceu verdadeiramente em Áulide, terminando aí toda a sua vida? Não sabemos, mas, por exemplo, Hesíodo, no seu Catálogo das Mulheres, diz que a jovem foi transformada na deusa Hécate, não falecendo no altar, dando-nos a perceber que eram muitas as opiniões que podiam ter existido sobre o seu destino final.

Mas volte-se à versão de Eurípides. A mesma trama geral do mito de Ifigénia também foi descrita por Aristóteles, na sua Poética, em linhas que merecem aqui ser recordadas. A tradução é em Português do Brasil, não sendo da nossa autoria:

Uma donzela, prestes a ser degolada durante um sacrifício, foi tirada dos sacrificadores, sem estes darem pelo fato [como nos diz a primeira das peças mencionadas acima]; e [a história depois continua na segunda peça, com esta sequência geral – ] transportada a outra região onde uma lei ordenava que os estrangeiros fossem imolados à deusa; e a donzela foi investida nesta função sacerdotal. Passado algum tempo, o irmão da sacerdotisa chega àquela região, e isto ocorre porque o oráculo do deus lhe prescrevera que se dirigisse àquele lugar, por motivo alheio à história e ao entrecho dramático da mesma. Chegando lá, ele é feito prisioneiro; mas quando ia ser sacrificado, deu-se a conhecer (quer como explica Eurípides, quer segundo a concepção de Polído, declarando naturalmente que não somente ele, mas também sua irmã devia ser oferecida em sacrifício) e com estas palavras se salvou.
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Como o filósofo grego dá a entender, a história da morte e sacrifício de Ifigénia, que nos poderia parecer o término da sua vida, é aqui o início de algo mais complexo, de toda uma aventura a que somente Orestes, num último momento, tem acesso. Assim, esta figura, é na primeira peça quase somente filha de Agamémnon, mas na segunda já tem o seu papel principal como irmã de Orestes; dos eventos com a primeira figura masculina pouco mais se conhece que o sacrifício (o que faz algum sentido, tendo em mente a cultura da época), mas é o reconhecimento final desta heroína pelo próprio irmão que bem nos chegou, e que mais nos caracteriza, hoje, esta figura!

O mito do Ofiotauro

O mito do Ofiotauro tem um grande problema – esta criatura é apenas mencionada por Ovídio nos seus Fastos, e mesmo nesse contexto ele era quase somente uma criatura metade serpente, metade touro, que tinha nascido da deusa Gaia.

Um exemplo de Ofiotauro

Segundo esse autor latino, dizia uma profecia que quem queimasse as entranhas de um Ofiotauro conseguiria derrotar até os próprios deuses do Olimpo; por essa razão o Estige aprisionou-a, mas o gigante Briareu acabou por conseguir recuperar esta criatura e matá-la. Contudo, quando tentava sacrificá-la no fogo, o corpo do Ofiotauro foi transportado por um pássaro para longe, a pedido de Zeus, e a intenção do titã foi completamente frustrada, levando eventualmente à famosa derrota dos titãs, num conjunto de batalhas cuja totalidade dos eventos já não nos chegaram de uma forma mais completa.

Os mitos de Atalanta

Em relação aos mitos de Atalanta, podemos dizer que um argumento que muitos autores da Antiguidade tendem a usar, face a figuras famosas como a de Hércules e a desta figura feminina, é que a sua multiplicidade de mitos se deve a uma junção de características, bem como de aventuras, de várias entidades que partilham um mesmo nome, ou a quem é dado um único nome comum. Dessa característica é um interessante exemplo a figura de Atalanta, a quem se atribuem duas aventuras principais na Mitologia Grega e Romana.

Parte do mito de Atalanta

A primeira é a de uma jovem que tinha jurado apenas casar com quem a vencesse numa corrida, sendo que todos os desfiantes derrotados eram mortos. Um dia Hipomene, desejando a mão da jovem, pede a ajuda da deusa Afrodite, que lhe dá algumas maçãs de ouro. Com esses mágicos frutos, Hipomene consegue ganhar a corrida (cada vez que Atalanta o ultrapassava, o seu opositor atirava-lhe uma maçã de ouro, levando-a abrandar para a recolher), e casar com ela. Mais tarde, e por razões que divergem entre os vários autores, são ambos transformados em leões.

 

A segunda, é a da participação desta figura num caça ao javali da Calidónia. É Atalanta que primeiro fere essa criatura, mas Meleagro que acaba por matá-la. Ainda assim, este segundo dá-lhe, no final e pela paixão que nutria pela companheira de caça, a cabeça e a pele do javali (um acto que, mais tarde, leva à morte deste herói, mas isso já é outra história).

 

Existe, em toda esta história, um grande elemento a ter em conta, que é o facto dos dois mitos apenas se intersectarem num único ponto, o nome da heroína. Porém, se são muitos os autores que confundem as duas figuras, atribuindo ambos os mitos a uma personagem una, isso ignora o facto das duas figuras terem paternidades totalmente diferentes e, portanto, dificilmente poderem ser uma só. É óbvio que essa fusão não faz qualquer sentido, sendo, nesse sentido, este um conjunto de dois mitos que nos mostra o mesmo fenómeno que se terá passado com Hércules, segundo alguns autores – pelo seu uso repetido, figuras muito parecidas acabaram por se confundir e tornar-se uma só, fazendo de duas Atalantas uma única, e de múltiplos Hércules um só.

“Dafnis e Cloé” de Longo, e a primeira flauta de Pã

Dafnis e Cloé é como que um “romance” (as aspas são intencionais, e devidas ao facto de vários especialistas nem sequer saberem bem em que consiste esse género literário) escrito na Antiguidade, por volta do século II d.C. e por um autor que, possivelmente, se chamaria Longo. A história é simples, com dois jovens abandonados pelos pais a serem criados por animais e, já na sua adolescência, a apaixonarem-se, e aprenderem as artes do amor juntos. Como é natural nestas tramas, eles acabam por ficar juntos, mas não sem antes passarem por algumas peripécias.

 

É uma obra muito simples, mas também nos permite constatar algo de curioso na cultura desses primeiros séculos da nossa era: se autores como Séneca, Cícero ou Santo Agostinho se focam num dado tipo de mitos, os mencionados nesta obra prendem-se sempre com um outro tipo de cultura, mais simples e própria dos pastores, em que figuras campestres como Pã, as Ninfas ou Cupido têm um papel mais central, e em que figuras que nos pareceriam tão importantes, como Júpiter, têm um papel mais secundário, sendo muito raramente mencionadas.

 

É nessa sequência que o autor da obra nos conta o mito da primeira flauta de Pã – o deus estava apaixonado por uma mulher, mas esta rejeita-o, e foge dele, morrendo num canavial. Então, o deus constrói essa primeira flauta, a que viria a dar o nome, com as mesmas canas em que a amada morreu, cortando-as de diferentes tamanhos visto que o amor entre eles também era desigual.

 

Este pequeno mito, como o famoso mito de Eco (também contado nesta obra), parece-me mais facilmente atribuível a uma cultura de pastores do que a um estrato social mais elevado, e se alguns instantes da obra até nos remetem a mitos muito mais conhecidos – num dado instante, a maçã que uma das personagens dá a outra é equiparada à que Páris, também ele um pastor, deu a Vénus – o tema pastoral está sempre presente, como o estão as três singulares figuras já acima mencionadas. Seria, portanto, Longo um pastor, ou alguém familiarizado com essa cultura menos conhecida na época? Infelizmente, pouco sabemos sobre o autor, mas parece-me até muito provável que sim.