Os círculos do reino de Hades

Há algum tempo foi cá falado da Divina Comédia, de Dante. Na primeira parte da obra, esse autor italiano divide o Inferno em vários círculos, e através de uma personagem homónima vai caminhando através deles, até chegar às figuras de Satanás, Bruto, e Judas. Mas quais teriam sido as fontes de Dante para essa ideia? Será que ele criou toda essa concepção do submundo? Poderia pensar-se que sim, mas, aparentemente, isso não é totalmente verdade. Sabe-se que o autor estava familiarizado com muitos mitos gregos e latinos, alguns dos quais bastante obscuros, e entre eles poderia até estar uma concepção do submundo muito semelhante à que usa na sua obra.

 

Assim, a obra de Sérvio, referida aqui há algum tempo, associado ao canto VI da Eneida uma curiosa concepção do submundo, que, apesar de não ocorrer directamente nessa obra, o comentador parecia conhecer, e que se estruturava da seguinte forma:

1º círculo – crianças

2º – os que não conseguiram ficar vivos

3º – os que se suicidaram

4º – os amantes

5º – os homens fortes

6º – os culpados, que são punidos pelos juízes (não está claro se o autor se refere aos juízes do submundo)

7º – local onde são purificadas as almas

8º – as almas já purificadas, prestes a retornar aos corpos

9º – as almas já purificadas, mas de tal forma que vão, agora, para os Campos Elísios

 

Se esta estrutura até é diferente da presente na obra de Dante, em que as almas não parecem sequer conseguir caminhar de um círculo para outro, aqui o submundo também é mostrado como um local onde vão sendo punidas, ou purificadas, as almas dos que morrem, e poderá ter sido daí, por adaptação, que o famoso autor italiano tirou parte da sua ideia. Mas não só, até existem outras fontes com ideias semelhantes

A divisão dos deuses em classes

Um dos aspectos mais interessantes da mitologia grega e romana é o facto de nem todos os elementos divinos terem a mesma importância. Assim, Varrão, numa das suas mais famosas obras, dividia os deuses em múltiplas classes, como nos informa Tertuliano. Existiam, para esse autor, os deuses dos filósofos, os dos poetas, e os da população, numa ideia que nada tem a ver, directamente, com a veneração, mas sim com a construção da ideia da própria divindade.

 

Quando, por exemplo, um dado poeta contava um mito num dos seus textos, podia até acontecer que esse mito tivesse algum fundamento religioso, mas também era possível que fosse, exclusivamente, o exercício da liberdade poética desse autor a tomar lugar. Não é por ele contar uma história em que Medeia e Hércules se conhecem e defrontam a Hidra de Lerna que um tal episódio era considerado como real pelo resto da população.

De forma equiparável, se um filósofo dissesse que cada uma das estrelas era uma deusa, isto não implicava que, de um dia para o outro, os céus se passassem a apresentar repletos de novos deuses, cada um com seu nome, e cada qual como objecto de veneração, mas sim que alguém simplesmente teorizou essa possibilidade.

E, ainda, existiam deuses que só eram venerados pela população (talvez de classe mais baixa?), como os deuses do nascimento e crescimento das crianças, os das descidas, e o das dobradiças da porta.

 

Essa é, de facto, uma enorme distinção que marca o confronto entre os autores pagãos e os cristãos. Como já aqui foi referido várias vezes no passado, se existiam mitos em que deuses devoravam os próprios filhos, ou em que Zeus traía a mulher com múltiplas mortais, nenhum dos adeptos da antiga religião parecia acreditar, ou considerar, que esses actos eram aceitáveis e deviam mesmo ser seguidos pelos humanos. Em vez disso, se, para eles, essas eram “fábulas dos poetas”, já os autores cristãos da Antguidade parecem assumir que era precisamente essa enorme imoralidade que a religião dos pagãos pregava – que todos deveriam trair esposas, ou comer crianças, entre incontáveis outros exemplos de actos horrendos – o que não era verdade.

Um outro aspecto importante a ter em conta, e que advém dessa tripla divisão, é que os deuses da população subsistiram durante mais tempo que os dos outros dois grupos. Na Idade Média, mais de 500 anos após a queda de Roma, ainda se conheciam exemplos de figuras não cristãs que eram veneradas por agricultores, mas esse é um tema que ficará para outra altura, dada a sua vastidão.

 

Porém, o mesmo autor, Varrão, e em relação aos deuses romanos, até faz uma divisão ainda mais surpreendente, quando os divide em certos, incertos, e eleitos. Tertuliano, autor cristão, goza essa divisão, e com alguma razão; se um deus é “incerto” (ou seja, se não sabemos se ele existe), porque deverá ele ser venerado? E se um deus pode ser “eleito”, como sucedeu com César e com várias outras, isso implicaria alguém ter a possibilidade de o eleger, como num Senado divino, algo que, por razões extremamente óbvias,  seria impróprio aos mortais.

 

Onde nos levam estas divisões? Essencialmente, a uma ideia de que a religião na Antiguidade, e mais particularmente na Grécia e em Roma, não era tão simples como nos poderia parecer, visto que a dois mitos distintos nem sempre é dada uma mesma relevância. Um deles até poderia ser um mito que era objecto de culto (por exemplo, o de Apolo e a Píton, em Delfos), enquanto que outro era mais considerado como uma mera “fábula dos poetas” (por exemplo, quando Diomedes fere uma deusa), e algumas figuras eram meramente locais (como Visidiano de Nárnia), e, portanto, os vários mitos nem sempre têm o mesmo grau de importância.

Rampsinito e a descida ao reino de Hades

São, nos mitos gregos, várias as figuras que desceram ao reino de Hades ainda vivas, entre elas heróis tão famosos como Orfeu, Teseu e Héracles.  Porém, existe uma outra figura, bem menos conhecida que as anteriores, que também o fez – Rampsinito.

 

Esta figura e o seu episódio mitológico é, acima de tudo, mencionada por Heródoto, que diz que esse rei desceu ao lugar dos mortos ainda em vida, defrontou Deméter num jogo de dados, e que a deusa lhe deu um lenço de ouro antes do rei voltar ao mundo dos vivos (presumindo-se que como troféu pela sua vitória, mas não é completamente claro), onde, agora, passaria a existir um festival religioso em honra do episódio.

 

Este parece ser um daqueles mitos criados para justificar a existência de um dado festival religioso, mas é curioso constatar que, apesar de ser mencionado por um autor tão famoso como Heródoto, poucos são os autores que tornam a referir esse evento atribuído à figura de Rampsinito, que o colocaria entre heróis tão importantes como os já mencionados acima.

A estranheza do “Julgamento de Páris”, e as “Troianas” de Eurípides

O episódio do “Julgamento de Páris” é, indubitavelmente, um dos mais conhecidos mitos gregos, e até já cá foi falado por mais que uma vez (uma referência ao mito pode, por exemplo, ser encontrada aqui), mas nas suas Troianas, Eurípides faz uma consideração muitíssimo interessante a esse mito. Mas já lá vamos, principie-se por uma pequena referência à obra em questão.

 

A obra Troianas, de Eurípides, fala do último dia em que personagens titulares viveram em Tróia, e é pelos olhos delas que o leitor/espectador tem acesso a muitos dos eventos que aí acabam por ter lugar, como a reunião de Menelau com Helena, os sacrifícios de Astíanax e Políxena, a tomada de Cassandra, etc., sendo esta uma peça que termina com os gregos a deitarem fogo ao (pouco) que resta da cidade de Tróia.

Entre os muitos episódios que a trama da peça aborda conta-se, então, um pequeno debate entre Helena e Hécuba. A primeira reconta o que aconteceu, a razão pela qual abandonou o marido e foi para Tróia, e nessas suas linhas recorda também o famoso episódio em que Páris julga as três deusas. Depois, quando Hécuba pretende refutar os argumentos da esposa de Menelau, usa um argumento interessantíssimo – porque estariam Hera ou Atena a competir num concurso de beleza? Caro leitor, pense nisso por alguns momentos, antes de continuar a ler estas linhas.

 

 

Porque necessitaria Hera de beleza? Como Hécuba argumenta, nessa altura, a deusa já era casada com Zeus, o mais importante de todos os deuses; será que, então, estaria ela a procurar alguém melhor, mais forte, que esse seu marido, quando nem poderia existir alguém assim?

Porque necessitaria Atena de beleza? A virgindade perpétua dessa deusa é mais que famosa, e a não ser que andasse a procurar marido (palavras da esposa de Príamo), nenhuma necessidade teria para esse dom.

Em suma, a argumentação de Helena, como se vê na própria peça, acaba por sair gorada, e Menelau, que estava a assistir a esse pequeno debate, acaba por ver os episódios das deusas como uma invenção da esposa, uma forma que esta tinha para se desculpabilizar.

 

Agora, até que ponto podemos fiar-nos nas palavras de Eurípides? Honestamente, não me recordo de qualquer outro autor – incluíndo os mitógrafos, ou os cristãos – que teça semelhantes oposições a este mito, pelo que o mais provável é que este episódio tenha sido inventado pelo autor, não tanto para difamar os antigos mitos, mas para dar a Helena um argumento muito conhecido, e para permitir a Hécuba vencê-la nesse mesmo campo, fazendo uso de uma jocosa inconsistência no mito.

Os mitos de Cidipe, Bíton e Cléobis

O mito de Cidipe, Bíton e Cléobis está presenta nas Histórias de Heródoto (1.31), mas é um sobre o qual Hígino, alguns séculos mais tarde, tem alguma informação curiosa a adicionar.

Cidipe, Bíton e Cléobis, cujo mito foi contado por Creso a Sólon

Quando, na corte de Creso, Sólon é instado a dizer que seria o segundo mais afortunado dos homens, este conta a história de Cléobis e Bíton, filhos de uma sacerdotisa de Hera que, na ausência temporária dos necessários bois, levam a mãe ao templo na junta de bois. Depois, o par de irmãos é elogiado pelos homens da cidade, face à sua força conjunta, e a mãe é elogiada pelas mulheres, que parecem, também elas, desejar ter filhos de semelhante valor. Nessa sequência, a mãe, aqui anónima, pede à deusa Hera que dê aos seus filhos o melhor para os seres humanos; então, após os sacrifícios e o jantar, os dois adormecem no templo, e morrem, assim, de uma forma serena.

 

Sobre esta famosa história, Hígino adiciona alguns elementos: a ausência dos bois devia-se ao facto destes estarem mortos, e se o sacrifício não fosse realizado a tempo a sacerdotisa de Hera seria morta. Depois, mais à frente, o mesmo autor diz que os jovens ainda levaram a mãe (e a junta de bois) para casa, e que quando Cídipe (o nome aqui dado à mãe dos jovens, que deixa de estar anónima) se apercebe da informação que a deusa lhe tentou veícular, morre voluntariamente.

 

Creio que já cá falei, uma vez, da importante ideia por detrás deste mito, mas a história de Sólon acaba por ser ainda mais importante por veicular aquela ideia da curva da existência, de que a vida tem altos e baixos, e então a maior felicidade para alguém seria a de morrer no maior desses altos, em vez de, como acabará por acontecer a Creso, viver para lamentar as, muitas vezes perigosas, consequências da vida. É esse o dom aqui dado por Hera aos dois irmãos, mas é também importante constatar que, na versão de Hígino, a mãe destes também se apercebe da razão da acção de Hera, e também ela decide morrer.