O tema da 11ª oração de Dion Crisóstomos é, creio eu, demasiado curioso para eu não falar dele aqui. O autor escreve, nessa altura, de uma Tróia que não foi derrotada, e de uma história de Homero repleta de mentiras. Deixa, por exemplo, subentendido que a cegueira de Homero se devia à mesma razão que a de Estesícoro, mas também diz que Helena jamais foi raptada, que Aquiles teria morrido pela mão de Heitor, que haveria uma boa razão para o mesmo autor não ter contado “as histórias de Mémnon e da Amazona”, que o famoso episódio do cavalo jamais teria tido lugar, e muitas outras coisas do género, que apoia no suposto testemunho de um egípcio com quem teria falado. Claro que qualquer outro autor poderia pôr problemas destes, mas o melhor, no texto de Dion, é que todas essas possibilidades estão extremamente bem justificadas, e até fazem todo o sentido, face aos argumentos apresentados. Mas… uma questão óbvia, aqui, é se o conteúdo do texto será verdadeiro, ou seja, se essa possibilidade, essa ideia de uma Tróia que não foi derrotada, era vista como real na altura. Será que era? No contexto das outras orações do mesmo autor, parecer-me-ia correcto concluir que, mais do que pensar na veracidade dessa ideia, deveríamos era pensar no porquê do autor escrever as linhas que escreve, e é nesse contexto que fará mais sentido ver este texto como, por exemplo, uma crítica aos sofistas, habituados a torcer as verdades com os seus argumentos, do que termos de nos interrogar sobre se, por exemplo, Homero fez um retrato fiel das artes guerreiras de Aquiles. Este sim, é um texto extremamente interessante, e que deverá, creio eu, sem dúvida ser lido por todos aqueles que estudam os poemas homéricos, quanto mais não seja para se poderem rir um pouco.
mitologia grega e latina
Um mito de Lâmia
São várias as criaturas que nos mitos gregos receberam o nome de Lâmia, mas Dion Crisóstomos, ao falar de uma criatura da Líbia com algumas das características desta (e cujo nome não refere explicitamente), atribui-lhe o tronco e face de uma mulher, bem como a parte inferior semelhante a uma cobra.
Primeiro, Dion descreve a própria criatura, e usa-a como um exemplo da importância de não cedermos a alguns vícios, sob pena de, atraídos pelo belíssimo corpo femino da Lâmia, sermos comidos por ela. Segundo, conta uma pequena história em que, apesar de um dado rei ter morto muitas dessas criaturas, algumas escaparam e causaram bastantes problemas, algo que o autor interpreta como, novamente, uma referência aos vícios, em que a supressão de alguns levaria a um aumento dos outros, algo que deveríamos igualmente temer.
Em terceiro, e último lugar, conta uma parte adicional do mito, que não moraliza, mas em que uma dada Lâmia teria sido capturada, levada para a cidade, e dois jovens, confundindo-a com uma prostituta e aproximando-se dela, foram atacados, tendo um deles sido comido. A moralização da terceira parte, essa, fica então para quem desejar pensar no tema, porque para citar um provérbio bem português, “para bom entendedor meia palavra basta”.
Um obscuro relato do que existe após a morte
No seu texto sobre o porquê dos deuses demorarem a punir os malfeitores, mais um que faz parte da Moralia, Plutarco refere a história de um tal Tespésio de Soli, que após uma vida atribulada teria “morrido”, voltado à vida, e contado aos seus amigos o que tinha visto. Não irei, obviamente, tentar resumir este obscuro relato, muito menos conhecido que os de Homero, Platão ou Cícero, mas quem o quiser ler poderá fazê-lo, em tradução inglesa, aqui, no longo parágrafo 22.
A origem dos daemones, segundo Lactâncio
Esta história, contada por Lactâncio, parece-me interessante o suficiente para ser recontada por cá. Após a criação do Homem, e os eventos que tomaram lugar no Jardim do Éden, a Humanidade vai-se tornando cada vez mais imoral, e Deus decide mandar alguns anjos para instruir a Humanidade e protegê-la do mal. Deu a esses anjos ordens para se absterem de tudo o que era terreno, mas a serpente seduziu-os, como fez com os primeiros homem e mulher, levando-os ao pecado, o que os tornou nos daemones que, com uma nova substância, seriam os venerados nas religiões da Grécia e suas semelhantes. Versões semelhantes a esta ocorrem em vários outros autores, mas esta é a única, de que me lembro, em que a ligação entre a criação divina original e os deuses dos Gregos é posta de uma forma tão directa e tão bem explicada. Claro que, como é hábito, isto nos leva à questão do mal, da criação da serpente, mas esse tema não é para aqui, não agora.
Sobre o filicídio de Medeia
Sobre o filicídio de Medeia, o que pode ser dito?
Para quem perceber o mínimo que seja de Direito saberá que um ponto crucial de qualquer tipo de crime é a presença, ou ausência, de premeditação, ou seja, se o acto foi realizado no calor do momento, ou se a pessoa já o teria planeado fazer, antecipadamente. Com base nesta distinção, as penas são até bastante diferentes porque se, por exemplo, uma pessoa matar outra quando está numa acesa discussão, isso é menos penalizado do que se o fizer a meio da noite, no silêncio e na escuridão, com uma faca. Agora, penso que isto tem especial interesse e relevância no mito de Medeia, particularmente naquele que é considerado o seu maior crime, o de matar os próprios filhos. Nas versões mais conhecidas do mito é inegável que Medeia o faz, mas, ao mesmo tempo, não me parece que exista qualquer tipo de premeditação nas suas acções. É que se, por um lado, são várias as mortes causadas por Medeia, todas elas parecem ter algo em comum, que é o facto de estarem intimamente ligadas à forma como ela é pintada, com dons de feiticeira. Isto faz todo o sentido, do ponto de vista antropológico, já que se sabe que as mulheres, quando querem fazer mal a alguém, tendem a optar por métodos indirectos (fogo, venenos, e outras que tais). Porém, enquanto que Medeia ataca os outros com esses métodos mágicos, todos eles obviamente premeditados, já no próprio assassinato dos seus filhos recorre a um método mais físico (creio que Eurípides até menciona uma faca), muito mais próprio, no caso de uma mulher, de um acesso de fúria, de algo que é apenas executado no calor do momento. Claro que isto não absolve Medeia do seu famoso crime, mas pelo menos dá-nos alguma margem de manobra para a defender. Medeia, de que creio que já ter falado anteriormente, é alguém que deixa o seu mundo por amor, alguém que abdica de tudo para seguir Jasão, para o ajudar repetidamente, e após um dado momento da história este torna-se alguém que não só não dá valor a tudo o que ela fez por ele, mas até a despreza, como se ela nada fosse, como se ela nada tivesse significado. E, nesse contexto, como qualquer mulher que passe pelas mesmas coisas saberá afirmar, os actos de Medeia são actos de fúria, actos de vingança, actos de tentar tirar a Jasão tudo aquilo que pode, mas sem sequer pensar que estará, igualmente, a perder os frutos do seu ventre. Isso denota, creio eu, que os actos dela face aos próprios filhos não foram planeados, mas sim algo que ela simplesmente fez, num preciso momento, por ser a única forma que tinha de se vingar de Jasão, de lhe causar tanta dor quanto possível, uma intenção que é sempre bastante comum nessas situações…