Santa Isabel e o Milagre das Rosas

De entre as lendas de santos em Portugal é provável que a de Santa Isabel e o Milagre das Rosas seja pelo menos uma das mais famosas. Por isso, iremos recordá-la não com as nossas palavras, mas aquelas que descrevem todo o acontecimento no Largo do Castelo do Sabugal:

Santa Isabel e o Milagre das Rosas

A história mais popular da Rainha Santa Isabel é sem sombra de dúvida o «Milagre das Rosas». Segundo a lenda portuguesa, numa manhã fria e geada de inverno a rainha santa saiu do Castelo do Sabugal para fazer a caridade aos mais desprotegidos da sociedade, levando no seu regaço pedaços de pão e outros víveres. Foi de imediato interpelada pelo rei seu marido, que a questionou «que levais no regaço?» De imediato respondeu «são rosas, senhor!»

Desconfiado, D. Dinis inquiriu-a de novo. «Rosas de Inverno?» A rainha mostrou então o conteúdo do regaço do seu vestido e nele só haviam rosas, ao contrário dos pãos que aí colocara.

In «História de Portugal», de Manuel Pinheiro

 

Onde tomou lugar um tão estranho acontecimento? Se a relação entre Santa Isabel e o Milagre das Rosas é mesmo real, seria de esperar que tivéssemos algum relato consistente de onde ele tomou lugar, mas as diversas fontes dizem-nos é que poderá ter sido em Coimbra, em Alenquer, em Leiria, ou até em outros locais. A presença desta versão da lenda no Castelo do Sabugal nota que também esse local é a ele associado. Mas, se realmente tomou lugar, ou se se trata somente de uma história fictícia, é algo mais difícil de responder… mas que merece a introdução de um elemento que poucos ainda parecem conhecer – entre outros milagres associados a esta mesma rainha contava-se um outro milagre das rosas, bem menos conhecido que este!

 

Segundo essa outra lenda, hoje muito pouco conhecida, quando estavam a ter lugar obras no convento de Santa Clara [a Velha], em Coimbra, esta rainha quis ir pagar aos funcionários com a sua própria mão.  Foi apanhada pelo marido, que perguntou o que levava consigo. A rainha, procurando esconder o ouro, disse que eram apenas rosas. Mas era Inverno, e então o seu marido, Dom Dinis, estranhando ainda mais toda a situação, pediu para as ver… e, por milagre, esse ouro transformou-se mesmo em rosas!

Contrariamente ao anterior, já este milagre – se tiver sido verdade, e não uma mera ficção – sabe-se bem onde teve lugar. Porém, a semelhança com o anterior levanta muitas questões… terão existido, em outros tempos, várias histórias semelhantes a esta, ou será que originaram num qualquer evento, potencialmente real, em que Santa Isabel foi apanhada com algumas rosas no seu regaço? Como é comum nestas coisas, já não temos qualquer forma de o saber, mas não deixa de ser curioso que alguma transformação de “algo” em rosas já tenha vindo a ser atribuído a esta rainha deste muito cedo nas suas histórias, até associadas a locais distintos. Mais que isso são, bem, apenas possibilidades…

A Lenda das Arcas de Montemor-o-Velho

A lenda das arcas de Montemor-o-Velho, também conhecida (mas erradamente) como uma lenda das arcas de Montemor-o-Novo é, na verdade, apenas uma só, que o contexto de algumas versões – que a associam ao tempo dos Mouros – permite identificar com a cidade próxima de Coimbra, a velha Mont Maior dos Árabes. E falamos de “versões”, aqui, com toda a justiça deste mundo, porque ouvimos e lemos as mais diversas versões de toda esta história, que em comum têm o grande facto de mencionarem, bem próximo do final da trama, duas misteriosas arcas, que parecem continuar a ser procuradas até aos dias de hoje.

Montemor-o-Velho, o castelo da lenda das duas arcas

Na verdade, fruto de existirem tantas versões diferentes desta lenda, acaba por ser difícil conseguir resumi-la aqui, mas todas elas têm em comum um elemento muito conhecido – que numa altura agora difícil de precisar foram escondidas no interior das muralhas do castelo de Montemor-o-Velho duas grandes arcas. Uma delas contém riquezas sem fim, enquanto que a outra, fisicamente igual em tudo à primeira, contém todos os males deste mundo. Como tal, por muito que as pessoas anseiem descobrir a primeira – e dizem vagas histórias dos nossos dias que elas continuam a ser procuradas no agora-famoso local – os poucos que dizem ter encontrado pelo menos uma delas temem sempre abri-la, com medo de tornar este mundo num local pior.

 

Será verdade, esta lenda das arcas de Montemor-o-Velho? Ou será que as duas arcas gémeas se escondem, em alternativa, em Montemor-o-Novo, no Alentejo? Visto que figuras tão eminentes como José Hermano Saraiva contaram esta lenda e a associaram à povoação próxima de Coimbra, não temos qualquer razão real para duvidar dessa identificação. Porém, já acreditar na verdadeira possibilidade da existência das duas arcas é algo muito diferente – a crer-se numa verdade da história, como se explicaria que alguém tivesse conseguido colocar numa singela arca todos os males do mundo? A Caixa de Pandora teve origem divina, e presume-se que só um verdadeiro deus conseguisse criar uma arca semelhante, mas nenhuma das versões que ouvimos o lemos informa qualquer proveniência etérea da mesma – e, assim, toda esta história se trata de uma mera lenda nacional, e nada mais…

 

 

P.S.- Curiosamente, esta não é a única lenda do género em Portugal. Num local de nome “Abóbeda”, em terras do Alentejo, acreditava-se que existiam dois potes enterrados, um com ouro e outro com veneno, sendo que este último tinha – por razões agora desconhecidas – uma sardinha de ouro na tampa. Apesar dessa ténue e estranha distinção entre os dois potes, também a abertura de um deles parecia ser temida pela população local…

A lenda da Batalha de Ourique

O tema de hoje, o da lenda da Batalha de Ourique, foi-nos suscitado por alguém que há algumas semanas veio cá procurar por ‘lendas antigas da época dos portugueses’. Não é totalmente claro o que essa pessoa brasileira pretendia encontrar, mas dado esse estranho mote achámos que poderíamos aqui contar uma das mais antigas e famosas histórias de Portugal, aquela de uma batalha que se diz ter tido lugar num local próximo de uma povoação com o nome de Ourique.

A lenda da Batalha de Ourique

Conta-nos esta lenda – se a batalha foi real, já que muitos dos elementos que entram nesta história só lhe aparecem associados vários séculos mais tarde – que a 25 de Julho de 1139 Afonso Henriques se encontrou em combate contra os exércitos de cinco reis mouros. As hostes inimigas pareciam-lhe infindáveis. Em desespero, retirou-se para um local fechado, um simples espaço em que pudesse descansar. Minutos depois surgiu-lhe um misterioso idoso que o convidou a sair para o exterior e olhar o céu. Quando o fez, Afonso Henriques viu Cristo Crucificado entre inúmeras hostes de anjos, e este prometeu-lhe que venceria a dura batalha do dia seguinte, como veio a acontecer, com palavras como as seguintes [preservadas pelo Padre António Vieira e que citam o Juramento de Ourique*]:

Eu sou o fundador e destruidor dos reinos e dos impérios, e quero em ti, e nos teus descendentes, fundar um império para mim, pelo qual o meu nome seja levado às nações estrangeiras.
(…)
Vencereis, vencereis, e não sereis vencido. Sois amado de Deus, porque pôs sobre vós e sobre vossa descendência os olhos de sua misericórdia até à décima-sexta geração, na qual se atenuará a mesma descendência, mas nela atenuada tornará a pôr seus olhos.

Em gesto de agradecimento, depois o rei colocou cinco quinas na sua bandeira, em homenagem aos cinco grandes reis mouros então derrotados na grande batalha de Ourique.

Quem seria o misterioso idoso, que apareceu a Afonso Henriques na Batalha de Ourique? Porque insistiu para que o milagre fosse exibido no exterior? Não sabemos a resposta à segunda pergunta, mas em relação à primeira a identidade da figura parece variar mediante as versões, podendo tratar-se de um qualquer santo ou até do próprio Jesus Cristo.

 

Agora, esta até podia ser a grande lenda da fundação de Portugal, que permitiria ver a independência como um desejo divino e Afonso Henriques como o grande timoneiro dos destinos de Portugal, mas… estragando um pouco a proverbial festa, é também uma lenda que só aparece em fontes escritas já no século XV, ou seja, mais de 300 anos após o suposto evento. É pouco provável que tenha um fundo de verdade, mas não deixa de ser uma belíssima lenda da fundação do nosso país, que teve um momento muito fulcral nesta Batalha de Ourique.

 

 

*- No relato de toda esta lenda é de grande importância um texto supostamente encontrado no Mosteiro de Alcobaça em finais do século XVI e que nos ficou conhecido sob o nome de Juramento de Ourique. É o mesmo citado pelo Padre António Vieira, composto por uma descrição – quase certamente fictícia – da lenda da Batalha de Ourique na voz de Afonso Henriques. Dado o seu enorme interesse, podemos citar aqui a maior parte do que diz o documento:

Eu estava com o meu Exército nas Terras de Além-Tejo, no Campo de Ourique, para pelejar com Ismael e outros quatro reis dos Mouros, que tinham consigo infinitos milhares de homens. A minha gente, atemorizada com esta multidão, estava enfadada e muito triste, em tanto que muitos diziam ser temeridade começar a guerra. E eu, triste por aquilo que ouvia, comecei a cuidar comigo que faria, e tinha um livro na minha tenda, no qual estava escrito o Testamento Velho e o Testamento de Jesus Cristo: abri-o e li nele a vitória de Gedeão, e disse antre mim: “Vós sabeis, Senhor Jesus Cristo, que por vosso amor faço esta guerra contra vossos inimigos, e que na vossa mão está dar-me a mim e aos meus fortaleza para que vençamos aqueles blasfemadores de Vosso Nome.”

Dizendo isto adormeci sobre o livro e logo vi um velho que se vinha para mim e me dizia: “Afonso, confia, porque viverás e desbaratarás estes reis, e quebrantarás os seus poderes, e o Senhor se te há-de mostrar.” Estando eu vendo isto, chegou-se a mim João Fernandes de Sousa, vassalo de minha câmara, e disse-me: “Senhor, levantai-vos, está aqui um homem velho, que vos quer falar”. “Entre”, disse eu, “se é fiel”.

E entrado ele onde eu estava, conheci ser aquele mesmo que eu tinha visto na visão. O qual me disse: “Senhor, está de bom ânimo. Vencerás, vencerás e não serás vencido. És amado do Senhor, porque sobre ti e sobre os teus descendentes depois de ti, Ele tem posto os olhos de sua misericórdia até à décima sexta geração, na qual se diminuirá a descendência, mas na mesma assim diminuída, o mesmo Senhor tornará a pôr os olhos e verá. Ele me manda dizer-te, que tanto que ouvires esta noite que vem, tanto a campainha da minha Ermida, na qual vivi sessenta e seis anos, entre os infiéis, guardado com o favor do Altíssimo, sairás do teu arraial, só e sem companheiros, e mostrar-te-á sua muita piedade”.

Obedeci e com reverência posto em terra, venerei o embaixador e a quem o mandava. E estando em oração, esperando pelo som da campainha, já na segunda vigília da noite a ouvi. Então armado com a espada, e escudo, saí do arraial, e vi subitamente para a parte direita contra o oriente um raio resplandecente, e o resplandecer crescia pouco e pouco em mais, e quando naquela parte pus os olhos com eficácia, logo no mesmo raio mais claro que o Sol, vejo o sinal da cruz e Jesus Cristo nela crucificado, e de uma outra parte multidão de mancebos alvíssimos, que eu creio eram os Santos Anjos. A qual visão, tanto que eu vi, posta à parte a espada, e escudo, e deixados os vestidos, e calçado, humilhado me lancei em terra, e aí derramando muita cópia de lágrimas, comecei a rogar pelo esforço dos meus vassalos. E nada turbado disse: “Vós a mim, Senhor? Porque a quem já crê em Vós, quereis acrescentar a fé? Melhor será que vos vejam os Infiéis e creiam, e não eu que com a água do baptismo vos conheci e conheço pelo verdadeiro filho da Virgem, e do Padre Eterno.”

A Cruz era de admirável grandeza e levantada de terra quase dez côvados. O Senhor, com suave órgão de voz, que meus indignos ouvidos receberam, me disse: “Não te apareci desta maneira para te acrescentar a fé, mas fortalecer o teu coração neste conflito e para estabelecer e confirmar sobre firme pedra os princípios do teu reino. Confia, Afonso, porque não somente vencerás esta batalha, mas todas as outras, em que pelejares contra os inimigos da cruz. Tua gente acharás alegre para a guerra e forte, pedindo-te que com nome de rei entres nesta batalha com título de rei. Não duvides, mas concede-lhe liberalmente o que te pedirem. Porque Eu sou o que faço e desfaço reinos e impérios. E minha vontade é edificar sobre ti e sobre tua geração depois de ti, um império, para que o meu nome seja levado a gentes estranhas. E porque os teus sucessores conheçam quem te deu o Reino, fabricarás o teu Escudo de armas com a divisa do preço, com que eu comprei o género humano, e com o que eu fui comprado dos Judeus. E ser-me-á um reino santificado, puro na fé e pela piedade amado.”

Tanto que eu ouvi estas coisas, prostrado em terra, o adorei, dizendo: “Senhor, por que merecimentos me anunciais tanta piedade? Farei o que mandais e vós ponde os olhos de misericórdia em os meus descendentes, como me prometeis; e a gente de Portugal guardai e salvai, e se contra eles algum mal tiverdes determinado, antes o convertei todo em mim; e a meus sucessores e o meu povo, que amo tanto como único filho, absolvei.”

Consentindo, o Senhor disse: “Não se apartará deles, nem de ti alguma hora minha misericórdia, porque por eles tenho aparelhado para mim grande sementeira, porque os escolhi por meus semeadores para terras mui apartadas e remotas.” E dizendo isto desapareceu, e eu, cheio de confiança e suavidade, tornei ao exército.

E que tudo passou assim eu el Rei Dom Afonso o juro pelos Santíssimos Evangelhos de Jesus Cristo, em que ponho a mão. Pelo que mando a meus sucessores, que tragam por divisa e insígnia, cinco escudos patidos em cruz, por amor da Cruz e das cinco Chagas de Jesus Cristo, e em cada um trinta dinheiros de prata, e em cima a serpente de Moisés, por ser figura de Cristo. E esta será a divisa da nossa nobreza em toda nossa geração. E se algum outra coisa intentar, seja maldito do Senhor e com Judas traidor atormentado no Inferno.

O Quinto Império e o Padre António Vieira

Quando se pensa na ideia de Portugal como um Quinto Império, hoje popularizada tanto na Mensagem de Fernando Pessoa como em outras obras literárias, deveria pensar-se não só em Bandarra, de que já cá falámos anteriormente, mas também na grande figura do Padre António Vieira, talvez até a que mais contribuiu para essa ideia. Agora, se o famoso autor aborda esse tema em diversas das suas obras – recorde-se que até escreveu um livro com esse título – talvez um dos mais fascinantes seja aquele com que nos deparámos recentemente, de título História do Futuro.

Uma obra do Padre António Vieira sobre o Quinto Império

O livro, que hoje se pode encontrar publicado somente numa forma incompleta e censurada, baseia-se, em conceito, numa ideia absolutamente fascinante – talvez até, para sermos sinceros, uma das mais fascinantes que já passaram por este espaço. E ela consiste em escrever não uma história do passado – como a são todas as outras, que por definição tratam das coisas que já aconteceram no mundo – mas em escrever uma história de tudo aquilo que ainda está por acontecer, nomeadamente a ascensão de Portugal como o grande Quinto Império deste mundo. E o país chegaria então a esse lugar cimeiro com a ajuda de… e é aqui que a proverbial porca torce o rabo, porque o viria a fazer com a ajuda de alguém cuja identidade desconhecemos*!

Na edição mostrada acima, no exacto momento em que o autor ia revelar essa informação faltavam pelo menos quatro páginas. Partimos em busca delas, mas acabámos por notar que estão ausentes em todas as edições da obra. E depois, quem prestar atenção à capa acima poderá, igualmente, notar a estranha referência a este como um livro anteprimeiro, ou seja, uma espécie de prequela da verdadeira História do Futuro, que já não nos chegou excepto em escassos fragmentos.

 

O que aconteceu ao resto da obra? Não sabemos, excepto no facto de que a Inquisição teve acesso a alguns capítulos que não nos chegaram, quando levou o famoso autor ao seu tribunal. É por isso possível que o Padre António Vieira até tenha composto uma versão mais completa, potencialmente acabada e em sete livros, mas que nunca foi publicada e não nos chegou. Por esta breve composição, na forma como a temos hoje, entende-se que propunha uma obra baseada em perguntas e respostas, e que apresentava Portugal como o Quinto Império através de profecias bíblicas e compostas por autores mais recentes, entre as quais se contaria certamente a da Batalha de Ourique, em que Cristo revelou a Afonso Henriques a glória futura de Portugal.

 

Mesmo na ausência desta obra, sabemos que a ligação entre o Padre António Vieira e o Quinto Império foi forte e muito concreta. Foi ele um dos principais autores a propô-la, indubitavelmente o mais famoso até Fernando Pessoa, com um misterioso monarca português e o papa (em Roma) como seus grandes governadores, mas… até à data de hoje acabou por não se concretizar. Será que um dia Portugal lá acabará por se tornar esse grande império profetizado em obras como aquela que hoje aqui apresentamos? Parece difícil, mas como também se costuma dizer, “o futuro só a Deus pertence” e “o futuro o dirá”.

 

*- Na sequência de uma outra obra, foi perguntado ao Padre António Vieira pela Inquisição a identidade do rei português que viria a comandar o Quinto Império. As respostas merecem ser mostradas directamente aqui:

O Padre António Vieira e o Quinto Império

Questão Quinta: Se El-Rei de Portugal há-de ser El-Rei D. Sebastião?
Negativo.

Questão Sexta: Se o dito Rei de Portugal há-de ser El-Rei D. João?
Problema.

Questão Sétima: Se El-Rei de Portugal há-de ser El-Rei D. Afonso, ou o Infante D. Pedro?
Vejo subir um Infante no alto de todo o sonho.

Ou seja, se ele acreditava num império desta natureza para Portugal, também parece indicar, por estas respostas que deu à Inquisição, que o seu monarca, o Encoberto, não seria D. Sebastião ou D. João IV, mas sim e provavelmente D. Pedro (“II”), mais do que D. Afonso (“VI”).

Qual o significado do brasão do Rio de Janeiro?

Há poucas horas falámos sobre o brasão da cidade de Coimbra, apontando nessa altura a dificuldade que era descortinar o verdadeiro significado por detrás dos seus símbolos. E, nesse sentido, antes de voltarmos a um mito grego, queríamos então cá trazer também um exemplo de uma situação contrária, um caso em que é bastante mais fácil fazê-lo.

Agora, se Coimbra foi a segunda capital de Portugal, achámos que poderíamos igualmente dedicar algum tempo aos leitores “do outro lado do oceano” e falar da segunda capital do Brasil – Rio de Janeiro – cujo brasão pode ser visto abaixo. Qual o significado do brasão do Rio de Janeiro?

Brasão da Cidade do Rio de Janeiro

No topo, como é costume, podem ser vistas as cinco torres que simbolizam o seu estatuto de cidade. Em redor, o louro e o carvalho e duas criaturas marinhas (foi-nos dito que são botos, parecidos com os golfinhos), cada qual com seu significado hieráldico. Mas o que está no centro?

O azul significa a lealdade. A esfera armilar e as três flechas, que já aí constam desde o tempo dos portugueses, remetem-nos para as descobertas manuelinas e a morte de São Sebastião (não confundir com Dom Sebastião). Finalmente, o barrete frigio central é, desde os tempos da Revolução Francesa, um símbolo da república.

 

O que distingue o caso deste brasão do de Coimbra, em Portugal? Se ambos foram sendo alterados ao longo dos séculos, no caso do Rio de Janeiro os símbolos essenciais foram (quase) sempre os mesmos, de uma simplicidade que evita quaisquer confusões. Já os de Coimbra, na sua complexidade tornaram possível que o significado inicial se fosse perdendo, levando a múltiplas interpretações que, por parecerem verdade, contribuíram para o esquecimento de uma simbologia que lá teria existido antes.