Qual o significado do brasão de Coimbra?

Há alguns dias, enquanto passeávamos pela cidade em questão, perguntaram-nos qual o significado do brasão de Coimbra? Para quem não souber a que nos referimos, aqui fica uma imagem dele:

Brasão de Coimbra

Quem é a mulher na parte superior da imagem? Porque é o elemento central tão vermelho? A que se referem a presença de um dragão, um leão e um cálice?

 

O grande problema em descortinar o significado por detrás de todos estes elementos não se prende tanto com uma ausência de fontes, mas com uma enorme discrepância entre todas elas, cada qual com uma opinião muito distinta, como dá facilmente a entender a obra conimbricense O Brasão de Coimbra, da autoria de Augusto Mendes Simões de Castro. E, por isso, nada como contar duas das versões que nos chegaram.

 

Segundo a Comédia sobre a Divisa da Cidade de Coimbra, de Gil Vicente, o elemento feminino era uma princesa de nome Colimena (ou Cindazunda), que foi raptada por um gigante e aprisionada numa torre, acabando por ser salva por um leão e uma serpente que, inesperadamente, parecia ter amestrado. Poderia ser uma boa resposta ao mistério por detrás de toda a simbologia da cidade, mas na mesma peça a princesa acrescenta que “o cálice está errado, pois devia ser uma torre aprisionadora”. Mas não é uma torre – é um cálice ou uma fonte (em algumas versões mais antigas do brasão da cidade até pode ser vista a figura feminina no seu interior), denotando que o autor da peça já desconhecia a razão verdadeira por detrás desse elemento central do brasão de Coimbra, descartando-o com uma alternativa muito pouco real.

 

Noutra versão, a figura feminina representada no brasão de Coimbra era a Rainha Santa Isabel. Face a séculos de confrontos na cidade (até se poderia dizer que o Mondego foi sendo tingido de sangue, daí o elemento vermelho), a sua vinda veio trazer comunhão e harmonia a dois grandes grupos que aí habitavam (seriam eles, por exemplo, cristãos e muçulmanos, escondidos por detrás das figuras do leão e do dragão?), juntando-os com um mesmo sangue (aqui representado na figura do cálice). É uma metáfora interessante, mas também só parece surgir mais tardiamente.

 

O que sabemos, na verdade, é que estes símbolos no brasão de Coimbra não surgiram por magia. Quando alguém decidiu, por exemplo, que este deveriam conter uma serpente (ou um dragão), isso foi feito com uma determinada intenção. Infelizmente, neste caso particular essa realidade una já se parece ter perdido ao longo dos séculos, como denota o facto de não existir uma só explicação horizontal, mas várias opiniões divergentes. E por isso não sabemos o que este brasão significava, na sua forma original – temos acesso, isso sim, é a diversas opiniões, aparentemente construídas sobre o desconhecimento de aquelas que foram, faz já muitos séculos, as razões reais.

A lenda da Nossa Senhora da Piedade da Merceana

Numa das suas epístolas, Luís Vaz de Camões diz-nos que vivia em Goa “mais venerado do que os touros da Merceana”. A que se referia ele, e porque eram esses touros assim tão venerados? Podemos contar essa lenda, tal como nos foi contada nas nossas viagens:

Nossa Senhora da Piedade da Merceana

Por volta do século XIV, em terras de Alenquer, um pastor notou que um dos seus touros (de nome Merceano ou Marciano) desaparecia todos os dias, voltando algumas horas mais tarde. Isso acontecia tantas vezes que um dia decidiu segui-lo. Seguiu-o, seguiu-o, seguiu-o, até que encontrou o touro prostrado em frente de uma árvore, como que a rezar. Face a tal prodígio, o pastor decidiu olhar melhor e encontrou, na copa dessa mesma árvore, uma imagem de Nossa Senhora da Piedade.

Retirando-a do local, levou-a depois ao padre da sua paróquia, que a colocou numa igreja. Porém, por muitas vezes que a imagem fosse levada para essa igreja, tornava a desaparecer de lá e a reaparecer no seu local original. Tantas vezes teve lugar o duplo milagre que o padre acabou por desistir, optando pela alternativa de construir uma igreja no local.

 

Face a tal prodígio, e acreditando-se que o poeta nasceu em Alenquer, é possível que nos tempos de Camões os touros da Merceana ainda fossem famosos graças a este evento miraculoso, levando-o à referência da sua epístola.

E, para quem estiver curioso, o local da igreja chama-se hoje “Merceana” por causa do nome do próprio touro. Conta-se que a miraculosa imagem – uma Nossa Senhora “da Piedade” pelo facto de apresentar o corpo de Cristo nos braços de Santa Maria (i.e. uma pietà) – ainda está no seu interior, mas nunca tivémos a oportunidade de a ver com os nossos próprios olhos.

A lenda de Dom Fuas Roupinho e da Nazaré

A lenda de Dom Fuas Roupinho e da Nazaré

Conta-nos esta lenda que, numa manhã de nevoeiro por volta de 1182, talvez até a 14 de Setembro, Dom Fuas Roupinho andava a caçar por terras da Nazaré quando viu um veado. No calor do momento decidiu persegui-lo quase até aos fins do mundo, e por pouco ia sendo levado à sua própria morte – o veado saltou de um penhasco e o cavalo do herói quase que o ia acompanhando, até que o “Farroupim” evocou o nome de Nossa Senhora e, no derradeiro momento, o animal estacou miraculosamente, salvando a vida daquele que transportava. As marcas do milagre foram de tal forma profundas que, segundo alguns, ainda podem ser vistas no local.

 

Como sempre nestas lendas, existem algumas divergências aqui e ali, mas uma das referências mais interessantes que encontrámos passa por se dizer que o veado era uma transformação do diabo, e daí se compreender a ajuda santa de Nossa Senhora.

Mas terá sido toda esta história verdade? Sabemos que Dom Fuas Roupinho foi uma figura real, viveu no tempo de Dom Afonso Henriques, foi alcaide de Porto de Mós e até um eminente comandante naval, sendo muito provável que tivesse passado pela Nazaré. Sabemos igualmente que foi ele quem mandou construir uma capela nessa vila, sobre uma antiga gruta onde já existia uma imagem de Nossa Senhora* (e, supostamente, próxima do local do milagre), pelo que poderá ter sido essa uma grande razão da associação entre as duas figuras. Mas se o episódio do veado realmente tomou lugar, isso é algo que só o próprio “Farroupim” nos saberia dizer.

 

*- Esta outra parte da história, uma espécie de prequela da lenda de Dom Fuas Roupinho e da Nazaré, parece estar quase esquecida nos dias de hoje. Ela diz que em inícios do século VIII da nossa era um dado monge veio da Nazaré – a outra povoação desse nome, aquela que está ligada à vida de Jesus Cristo – para este local e, temendo pela sua própria vida, escondeu uma imagem de Nossa Senhora em território nacional, a mesma que viria a ser encontrada quase 500 anos depois pelo agora-famoso fidalgo português. Esta ideia poderia parecer apenas uma fantasia, mera imaginação, até que se considere a hipótese de que o monge poder estar a fugir do Iconoclasmo oriental, e daí a necessidade de esconder uma imagem que tinha trazido consigo por mar…

As duas lendas do Uirapuru

As duas lendas do Uirapuru são um bom exemplo daquela falta de horizontalidade que existe nos mitos e lendas que se dizem simplesmente do Brasil, como se num país tão grande as mesmas histórias se pudessem repetir de uma forma igual em todos os locais. O que não é verdade, como é óbvio! Por exemplo, as lendas dizem que este pássaro nem sempre teve esta forma, que já foi humano como nós. No entanto, o que aconteceu ao Uirapuru, também conhecido como Irapuru, parece variar em pelo menos duas lendas (e é provável que até existam mais):

Uma espécie de Uirapuru, foto

Duas lendas do Uirapuru

Numa das versões da lenda, duas mulheres apaixonaram-se por um mesmo homem. Este sugeriu-lhes então uma pequena competição de arco e flecha, em que a vencedora ficaria com ele. A vencedora recebeu o amor de um homem que dizia amar; a vencida, triste, fugiu para a floresta e foi transformada neste pássaro, perpetuando a sua tristeza com um canto que soava a eterna dor.

Numa outra versão, um homem amava uma mulher que jamais poderia possuir para si. Então, pediu aos deuses que o transformassem neste pássaro. E depois, sob essa nova forma, dedicou-se a proclamar aos quatro cantos da floresta aquele que era o seu grande amor.

 

O canto do Uirapuru

Em ambos estes casos, em ambas as lendas que resumimos aqui, a forma do Uirapuru e o seu canto estão associados ao sofrimento pelo amor. Porquê? Não é fácil de explicar, mas convidamos os leitores a que oiçam o canto de um pássaro desta espécie, para que possam compreender melhor essa face mais real das duas lendas.

Parece-vos o pequeno pássaro destas duas lendas triste? Parece-vos que ele ainda sofre por amor, nesse seu singular canto? A resposta, essa, como em muitas outras destas coisas, fica para quem for ler estas linhas, que deverá tirar as suas próprias conclusões…

Em busca da Princesa Magalona

Já ouviram falar da Princesa Magalona? Já foi uma figura muito famosa, mas hoje em dia está bastante esquecida. Nesse contexto, podemos até dar um exemplo de aquela que foi a sua popularidade – num famoso filme português, Aldeia da Roupa Branca, de 1939, surge uma breve sequência em que um grupo de crianças ensaia uma pequena peça de teatro. Nela estão representadas uma princesa, um pastor, uma bruxa e alguns anjos. Pouco depois, quem está a ensaiar a peça diz que a cena pertence à “nova história da Princesa Magalona, que eu comprei em Lisboa”.

A Princesa Magalona

Aos mais curiosos poderia surgir uma questão – afinal de contas, quem é essa tal “Princesa Magalona”?

 

Em busca de uma resposta acabámos por descobrir que existe mesmo uma história com esse nome. Tratava-se, originalmente, de uma história medieval, que parece ter sido popular por toda a Europa e que até teve diversas edições em Portugal. Mas, nas edições a que tivemos acesso, já dos séculos XVIII e XIX, intituladas História verdadeira da princesa Magalona, filha d’El-Rei de Nápoles, e do nobre, e valoroso cavalheiro Pierres, Pedro de Provença, e dos muitos trabalhos, e adversidades, que passaram, sendo sempre constantes na fé, e virtudes, e como depois reinaram, e acabaram a sua vida virtuosamente no serviço de Deus, não existe qualquer referência ao momento mostrado no filme. De facto, a história do livro não tem quaisquer elementos mágicos, apresentando uma trama que muito se assemelha a tantos outros romances de cavalaria. E, na verdade, parte do seu conteúdo até é muito brevemente aludido no Dom Quixote de Cervantes, através de uma menção ao “rapto” de Magalona por Pedro.

 

Mas seria, então, a história presente no filme pura fantasia cinematográfica? Parecia-nos que sim, até que nos apercebemos da existência de diversas histórias tradicionais associadas ao nome de uma outra “Princesa Magalona”, que não era a figura medieval e cuja herança ainda hoje pode ser encontrada no substantivo magalona, que o dicionário da Priberam diz tratar-se de uma “mulher vistosa, ataviada”.

Nesse contexto, o breve momento do filme parece derivar de uma ligação entre duas tradições reais mas distintas – a personagem ter comprado um possível folhetim em Lisboa; e ele conter uma possível “nova” história de uma princesa cujo nome era bem conhecido nas histórias orais da época.

Esta possibilidade faz até sentido se tivermos em conta o carácter muito tradicional, quase estereotipado, das personagens da peça – a bela princesa, o pastor que não gosta da cidade, a feiticeira cujos poderes nada podem contra a religião cristã, etc. E se, nesse seguimento, a história aí parcialmente representada não parece existir de forma mais completa… até faria algum sentido que sim!