A verdadeira lenda da Porca de Murça

A chamada Porca de Murça

Imaginem-se, por um breve momento, a passear na vila de Murça, no norte de Portugal, conhecida pelo que é chamada a Porca de Murça. Ao cruzarem o Largo 31 de Janeiro poderão encontrar a estátua presente na imagem acima. Mas… o que vêem representado nela? É uma porca, um javali, um urso, ou um outro animal?

 

Queiramos ou não, a resposta a essa questão é um elemento fulcral da lenda da Porca de Murça. Numa dada altura do passado nacional esta estátua celta foi encontrada perto da povoação em questão, e dela derivou a lenda de que, em tempos já há muito idos, um enorme animal tinha assolado aquela região, até que foi atacado e morto pelos habitantes, restando dessa grande batalha apenas a memória imortalizada na estátua que pode ser vista ali na fotografia.

 

Mas, a acreditar nessa breve lenda, qual foi o animal a atacar os aldeões, e que pode ser visto tanto na estátua como no emblema da vila? Uma enorme porca de Murça? Uma ursa? Um javali? Outro animal? É, talvez mais que tudo, aquilo que nela quisermos ver, uma reinterpretação de uma antiga estátua, cujo significado original já há muito se perdeu nas areias do tempo…

Um mito de Endovélico?

Em relação a um mito de Endovélico, há que começar por esclarecer que uma parte significativa das histórias que vão sendo contadas por cá provêm da Grécia Antiga ou do tempo dos Romanos, e que temos acesso a esse conhecimento porque os autores da altura decidiram deixar-nos, por escrito, algumas das histórias que envolviam cada uma dessas divindades e heróis. Contudo, o caso de esta figura divina, de origem bem portuguesa, é significativamente diferente.

A Face do mito de Endovélico

Endovélico é conhecido como o mais popular dos deuses (ou heróis divinizados? Não podemos ter a certeza…) da Península Ibérica na Antiguidade. Mas, mesmo se tratando, aparentemente, de uma importante divindade nativa do nosso país, nenhum autor grego ou romano nos fala dele, nem nenhum autor ibérico a ele se refere com informação completamente credível. E, na verdade, nada saberíamos hoje sobre esta figura não fosse o facto de terem sido encontrados diversos ex-votos com o seu nome, como aquele que pode ser visto na imagem acima, juntamente com uma cabeça que se supõe ser a do próprio Endovélico. A pouca informação que temos sobre ele (ver, por exemplo, aqui um interessante artigo de José D’Encarnação que a resume), permite-nos perceber alguns dos seus contornos e poderes, mas nada nos diz sobre alguma possível história real que possamos associar a esta figura ou ao seu santuário do serro de São Miguel da Mota.

 

Nesse sentido, se Endovélico até é uma divindade de uma importância inegável na cultura ibérica, procurar um mito associado a ele é, na verdade, uma tarefa impossível. Nenhum autor nos parece ter deixado a sua história real, sendo ele, para nós, pouco mais que um mero nome de um passado há já muito esquecido.

As duas lendas da Cruz Quebrada (na Linha de Cascais)

A ponte em Cruz Quebrada

Muitos são os topónimos portugueses cuja verdadeira origem se encontra envolta em mistérios. Hoje iremos falar de outro local problemático, a Cruz Quebrada. De onde vem esse nome? Existem pelo menos duas lendas associadas a ele:

 

Numa delas, um moleiro local sofreu várias desilusões de amores. Procurando uma solução para os seus males do coração, aproximou-se de um herético que lhe disse que deveria fazer um dado ritual, no qual um dos passos passava por mutilar uma cruz que estava exposta em público. Imprudentemente, fê-lo mas foi apanhado; em seguida foi julgado e queimado numa fogueira, mas o acto que tinha cometido pareceu tão horrendo entre os fiéis que acabou por dar nome à povoação em que teve lugar.

 

Uma outra lenda diz algo significativamente diferente. Conta-nos que no tempo das invasões francesas alguns soldados estrangeiros decidiram derreter símbolos religiosos para reaproveitarem os materiais. Com vista a esse objectivo, numa dada altura foram a uma ponte em que existiam duas cruzes e removeram uma delas. Por milagre, a sua companheira começou a gritar, a pedir socorro, e só se calou quando a outra foi reposta no seu local. Tal milagre levou ao nome da “Cruz Que Brada” (i.e. que solta gritos), que mais tarde se tornou “Quebrada”.

 

Porque tem, então, a povoação de Cruz Quebrada esse nome? O elemento miraculoso da segunda lenda é potencialmente problemático, mas não sabemos até que ponto a primeira será digna de maior crédito. Poderá, realmente, preservar a origem do nome da povoação, mas… terá sido verdade, a história que nos conta?

A verdadeira lenda da Boca do Inferno

Na zona de Cascais, tomando a estrada na direcção da praia do Guincho pode-se encontrar uma zona que tem o nome de Boca do Inferno. Uma designação tão singular certamente que tem uma razão de ser… por isso, qual é a verdadeira lenda da Boca do Inferno?

A lenda da Boca do Inferno

Conta-nos então a lenda que próximo do local já existiu um castelo mágico. Nele vivia um horrendo feiticeiro que desejava casar com a mais bela jovem da região. Mas, uma e outra vez, esta recusou amá-lo. Então, procurando amolecer o coração da jovem, o feiticeiro prendeu-a numa torre e colocou um cavaleiro a guardar a entrada. Um dia, movido pela curiosidade, este guarda espreitou para o interior da cela, por uma primeira vez, apaixonando-se pela donzela. Também esta parece ter caído de amores por aquele que então a observava. Juntos, decidiram fugir da torre e viver o seu amor. Porém, o feiticeiro depressa soube desta intenção comum e usando a sua magia maléfica fez brotar um enorme buraco no chão, onde os dois amantes viriam a cair (para o Inferno?); nesse momento, o cavalo de ambos deu até um enormíssimo guincho, acção pela qual foi dado esse nome a uma praia relativamente próxima – a Praia do Guincho – até onde chegou esse derradeiro grito animalesco.

 

Agora, se esta é a mais famosa lenda da Boca do Inferno (uma pesquisa pela internet até revela, uma e outra vez, outras versões de esta mesma história), tem o problema de pouco ou nada explicar. Na verdade, até levanta mais perguntas do que aquelas a que responde! De onde vem, então, o nome deste local? Face à ausência de outros mitos ou lendas que o expliquem, propomos aqui uma solução para o problema.

 

Um pequeno filme, datado de 1896 e dirigido por Henry Short, supostamente foi filmado neste local, e chama-lhe simplesmente uma sea cavern, uma caverna próxima do mar.

Fontes literárias do século XIX referem-se igualmente a uma “Boca ou Gruta do Inferno”. No entanto, o que hoje podemos ver no local não é uma caverna ou uma gruta, mas pouco mais que um arco de pedra. Se o tecto dessa (suposta) caverna tiver caído ao longo dos anos – e vimos fotografias datas indisputavelmente de 1916 em que ele já não existia – a famosa lenda faz um pouco mais de sentido, mas continua sem explicar o nome do local. Porém, uma versão oral da mesma (ver aqui) dá uma pista preciosa, na medida que parece indicar que o nome era dado à entrada do local, à “boca” da caverna vista no vídeo, mais do que ao local interior em si mesmo. E isto, de facto, faz algum sentido. Quem, como tentámos há alguns dias, for a este famoso local numa manhã de tempestade, pode facilmente ouvir o barulho aí produzido pelas ondas. Soa a uma espécie de rugido, de grito infernal. Se o acesso ao interior da caverna era difícil (e tratando-se, nessa altura, Cascais de uma vila piscatória, era quase certamente feito por barco) é possível que daí tenha surgido a ideia de que esta era uma entrada, uma metafórica “boca”, para o Inferno.

 

Mas, então, onde ficam o feiticeiro, o cavaleiro e a donzela? Essa lenda da Boca do Inferno certamente que não é medieval, nem faria sentido existindo ainda no local uma caverna. Terá nascido já em pleno século XX, numa altura posterior ao abatimento do tecto, não existindo por isso uma relação directa entre a lenda tal como a conhecemos e o nome do local? É muito provável que sim…

A estranha história de Henriqueta Emília da Conceição e Sousa

Henriqueta Emília da Conceição e Sousa, nascida na cidade do Porto no ano de 1840, é uma figura complexa, na medida que as circunstâncias da sua vida estão hoje muito envoltas num misto de realidade e mito. Isto é particularmente visível em obras ficcionais, escritas alguns anos após a sua morte, de que a mais famosa é provavelmente Henriqueta ou uma heroína do século XIX, da autoria de A. J. Duarte Junior, publicada em 1877.

 

Então, o que sabemos sobre ela? Supostamente foi órfã, violada quando ainda era criança, e posteriormente dedicou-se aos roubos, à prostituição, e a outros ilegalidades, dando origem a um conjunto de circunstâncias a que os romances da época muito vieram a adicionar. Quando ainda não tinha sequer 30 anos, apaixonou-se por uma mulher de nome Teresa Maria de Jesus, que viria a falecer em 1868. E aqui começa o cerne da história de hoje.

 

Com o falecimento de Teresa, Henriqueta viu-se envolta no maior sofrimento. Não sabia como viver sem a “amiga”. Chorava, lamentava-se, sentia-se incapaz de continuar a viver. Então, decidiu mandar construir-lhe um túmulo digno, ainda hoje adornado com uma belíssima estátua de São Francisco.

(C) Nils Pickert 2016

Restava a transladação do corpo. Henriqueta seguiu todos os trâmites legais, até ao dia da deposição da falecida na nova campa. Porém, quando foi altura do novo enterro, pediu para ficar alguns momentos a sós com a amiga, de forma a se poder despedir com maior emoção. Depois, só e face ao cadáver, arrancou-lhe a cabeça e levou-a. E, durante algum tempo, viveu com a cabeça da sua amada na sala de sua casa, colocando-a à mesa, beijando-a, falando até com ela, como se de uma pessoa viva ainda se tratasse.

 

Mais tarde foi apanhada neste seu crime, mas não sofreu qualquer pena de maior – tratava-se, segundo o juíz, de um crime de amor, da simples loucura e desespero de uma mulher muito apaixonada. Diz-se que a cabeça do cadáver foi posteriormente devolvida à sua proveniência, mas contrariamente aos desejos de Henriqueta não vieram a partilhar um mesmo túmulo na eternidade. E, por isso, duas noites por ano é ainda possível ouvir nesse cemitério o triste lamento de Henriqueta por Teresa, num assombramento que, apesar de já muito esquecido, pouco fica a dever aos mais famosos do nosso país

 

 

P.S.- Para um caso semelhante a este, mas relativamente mais recente, procure-se a história de Carl Tanzler, que continuou a amar uma mulher mesmo depois de morta, chegando ao ponto de desenterrar o seu cadáver, o levar para sua casa, o reconstruir, e viver com ela quase como marido e mulher.