Duas histórias assustadoras, e um pequeno evento

Para celebrar a vinda do Halloween (ou a véspera do Pão por Deus, se preferirem tradições portuguesas), as próximas três noites serão ocupadas por três histórias assustadoras, com a noite seguinte – de 31 de Outubro para 1 de Novembro – a ser ocupada por uma experiência, o primeiro encontro físico deste espaço, onde se procurarão contar – e escutar – outras histórias da mesma natureza.

Uma porta de madeira, só isso

Para esta primeira noite iremos a uma história supostamente real, que nos foi contada durante a nossa busca por relatos orais em território português. Provém de um casal que vive numa pequena aldeia no distrito de Bragança, que nos permitiu partilhá-la de forma anónima.

 

Segundo o patriarca do casal, em casa de alguns amigos, hoje já falecidos, durante as noites de lua cheia costumava-se ouvir alguém a bater à porta. Mas, por muitas vezes que se inquirisse sobre a identidade do visitante, nunca era obtida qualquer resposta. Então, uma dada noite, aquele que se viria a tornar o relator da história decidiu tentar algo de diferente, perguntando simplesmente “Ao que vem? O que deseja?”, levando à resposta de uma voz masculina misteriosa – “Quero um alqueire de trigo.” Esse desejo foi cumprido, sendo colocado no local antes da noite seguinte, e… tanto o trigo desapareceu, como a presença do “visitante” nunca mais foi sentida.

 

A esta história, a esposa do relator acrescentou que também ela já tinha passado por algo semelhante. Há mais de 70 anos, quando ainda vivia com os pais, durante a noite por vezes eram ouvidos barulhos de uma máquina de costura no piso superior da casa – o que nada teria de errado, não fosse o facto de esta apenas ter um piso térreo. Em busca do que se poderia andar a passar, os habitantes da casa falaram com uma vizinha mais idosa, que lhes disse que naquela casa tinha vivido uma menina que tinha prometido a Nossa Senhora um novo véu, mas que ela tinha falecido antes de acabar de o coser. Assim, foi comprado um véu e este foi oferecido à igreja local, o que fez cessar por completo os estranhos barulhos [ver mais aqui].

 

Mas… serão estas histórias reais? Será que realmente tomaram lugar? Fomos repetidamente assegurados que sim, que as almas penadas que tinham promessas por cumprir agiam de formas como estas, mas… será que algo de semelhante já se passou com os leitores? Como sempre, se tiverem histórias semelhantes para contar, por favor deixem-nas nos comentários.

A história da festa de Santo António

Santo António e Cristo

Esta história portuguesa chegou-nos por via oral. É uma história que em tempos de meninice foi contada a uma pessoa, hoje já com 83 anos, pela sua avó.

 

Um dia, Santo António queria ir a uma festa, mas o seu pai [António?] ordenou-lhe que guardasse as colheitas. Então, na ausência do pai, Santo António construiu uma gaiola com algumas canas e, por milagre, fez com que os pássaros entrassem todos para o seu anterior. Depois, foi para a sua desejada festa.

Quando o pai o viu por lá, disse-lhe “Ó meu malandro, o que estás tu a fazer aqui? Devias ter ficado em casa, a guardar os campos!” Bateu-lhe. Mas, mais tarde, quando voltaram a casa, ambos viram uma pequena gaiola no meio de um campo, com todos os pássaros lá dentro, bem aconchegadinhos… e o seu pai entendeu que só se poderia tratar de um milagre divino!

 

Esta história, com mais ou menos detalhes, pode ser lida em algumas obras portuguesas. Neste exemplo é-lhe atribuída uma data na década de 1930. Isto não só mostra que era uma história conhecida na altura, mas que também o era um pouco por todo o país. E agora, com um pouco de sorte, pode ser que venha a ser conhecida entre mais pessoas das novas gerações.

A verdadeira lenda do Galo de Barcelos

Galo de Barcelos

Poderá parecer estranho a alguns leitores, mas até existe uma verdadeira lenda do Galo de Barcelos. A forma mais básica da lenda é famosa, mas, estranhamente, parecem ser cada vez menos os Portugueses que conhecem toda a história por detrás de este artefacto. Por isso, nada como recordá-la nas linhas seguintes.

 

Num ano hoje desconhecido tiveram lugar na cidade de Barcelos diversos crimes. Acabou por ser acusado um peregrino que se deslocava para Santiago de Compostela. Por muito que insistisse na sua inocência ninguém quis acreditar nele. Então, numa derradeira tentativa de se salvar da forca que esperava, ele pediu para ser levado a um juíz.

Tratando-se possivelmente de um domingo, o peregrino foi levado a casa do juíz, onde o encontrou a tomar um faustoso almoço. Apontando para o galo que estava numa das travessas, disse-lhe: “É tão certo eu estar inocente como esse galo ir cantar quando eu for enforcado”. Obviamente que todos os presentes se riram – quem não o faria, nessas circunstâncias? – mas, prudentemente, decidiram esperar.

Quando o peregrino estava prestes a ser enforcado, o mesmo galo – que, recorde-se, já estava cozinhado e pronto a servir – cantou miraculosamente. O juíz e os seus companheiros ainda tentaram impedir a punição planeada, mas… não teriam chegado a tempo ao local não tivesse tomado lugar um segundo milagre – São Tiago amparou a queda do acusado, impedindo-o de morrer na forca. O peregrino foi libertado e prosseguiu viagem até ao santuário do seu salvador. Uns anos depois voltou a Barcelos para mandar erigir um cruzeiro a celebrar o que lhe tinha acontecido.

Cruzeiro do Senhor do Galo

Este cruzeiro ainda pode ser visto em Barcelos, próximo da Rua Fernando Magalhães, mas já não ocupa o seu local original (que, naturalmente, era próximo do local da forca). Como visto na imagem acima, o topo do monumento tem a figura de Cristo crucificado; abaixo dele pode ser visto o miraculoso Galo de Barcelos, o peregrino prestes a ser enforcado, e até São Tiago (ou, se preferirem, “Santiago”) a amparar a queda.

 

A existência deste monumento é crucial para compreender uma potencial versão antiga da lenda. Se muitas outras são conhecidas nos nossos dias – bastará fazer uma pesquisa no Google por “Lenda do Galo de Barcelos” – elas tendem, quase sempre, a apresentar um único milagre, o do cantar de um galo que já há muito tinha morrido. Mas, como este monumento prova, também um santo interviu na mesma trama, e ele não merece o esquecimento a que parece estar muito votado nos nossos dias.

A lenda da Abóbada da Batalha

Quando se trata de grandes espaços religiosos em Portugal, o Mosteiro da Batalha, cuja construção começou por volta de 1387, é provavelmente um dos mais famosos, e esta lenda da Abóbada da Batalha transporta-nos precisamente para esse local.

Lenda da Abóbada da Batalha

O projecto original do mosteiro foi da autoria de Afonso Domingues, mas à medida que o tempo foi passando ele mostrou-se incapaz de continuar, diz-se que por uma doença que lhe estava a causar cegueira. Assim, o seu trabalho foi continuado por David Huguet, que achava que o plano original para a Abóbada da sala do capítulo jamais iria funcionar… então, desenhando uma nova solução para o local, implementou-a e… a Abóbada caiu! Consideraram-se outras soluções, até que Afonso Domingues foi chamado novamente para fazer esta Abóbada da Batalha… e implementando-se a sua ideia original, ela não caiu quando os apoios foram retirados. Diz-se então que este arquitecto se sentou abaixo do local por três dias, certo de que a sua Abóbada não caíria, dizendo repetidamente “A Abóbada não caiu, a Abóbada não cairá!” – e, de facto, ela nunca caiu.

 

É esta a mais famosa das lendas do chamado Mosteiro de Nossa Senhora da Vitória, na Batalha, ao ponto de ter inspirado filmes e uma versão nas Lendas e Narrativas de Alexandre Herculano. Por isso, se algum dia forem visitar este mosteiro, procurem a sala em questão, olhem para esta famosa Abóbada da Batalha, e recordem-se de toda a lenda por detrás dela…

A lenda da Estátua do Duque de Coimbra

Encontrar uma possível lenda associada a uma Estátua do Duque de Coimbra não foi tarefa fácil. Isto porque se existem, hoje, várias estátuas de Dom Pedro, i.e. o primeiro duque da cidade e conhecido pelas suas sete partidas, nenhuma parecia ser suficientemente antiga para poder ter inspirado alguma espécie de lenda. Curiosamente, essa ausência de um memorial físico antigo acabou por provar-se a chave para todo o mistério!

 

Segundo a breve lenda, diz-se então que numa dada altura o povo quis erigir uma estátua ao Infante Dom Pedro (alegadamente no Palácio dos Estaus, em Lisboa), em virtude de ele ser muito popular e bem amado na sua época. Contudo, ele rejeitou essa estátua, pela modéstia que lhe foi inspirada pelos modelos da Antiguidade, e porque sentiu que essa homenagem não lhe deveria ser feita em vida. Assim, a Estátua do Duque de Coimbra, a que se refere esta espécie de lenda, é notável pela sua não-existência e pelos eventos que levaram a tal, mais do que por uma potencial homenagem que lhe tenha sido feita…