A origem dos Pós de Perlimpimpim

Os Pós de Perlimpimpim são uma daquelas expressões em que muita pouca gente ainda parece pensar nos dias de hoje. Como os “Fenómenos do Entroncamento“, o “sexo dos anjos“, ou o “conto do vigário“, talvez alguém até pense nisso quando ouve a expressão na televisão, ou a lê de passagem num qualquer livro, mas é, sem qualquer dúvida, mais uma ideia curiosa da língua portuguesa. No Brasil, é sobejamente conhecida dos livros de Monteiro Lobato, em particular do Sítio do Picapau Amarelo, mas é natural e previsível que ela aí tenha chegado através da cultura portuguesa. E, se assim o é, de onde nasceu essa expressão, tal como ela ainda é utilizada nas nossas terras lusitanas?

A origem dos Pós de Perlimpimpim

Em busca de uma resposta, fomos à procura das mais antigas referências à expressão, que depressa descobrimos que provém da língua francesa. Por exemplo, em 1750, o Dictionnaire comique, satyrique, critique, burlesque, libre et proverbial já se referia à expressão “poudre de perlimpinpin” (ou pó de perlimpimpim, se o preferirem, no nosso português) como algo que se dizia “des choses qui n’ont aucune vertu” (i.e. “das coisas que não têm qualquer virtude”). Uma espécie de banha da cobra, se preferirem, o que facilmente nos explica o significado que ainda tem nos dias de hoje. Mas, então, de onde provém o próprio “perlimpimpim”, que deve ser uma das palavras mais incomuns da língua portuguesa dos nossos dias?

 

 

Partindo dessa mesma língua francesa e tomando por pista a sua composição em pó, descobrimos então que essa estranha palavra, na língua original, nasceu da junção de “prêle” com “pimpin“. São duas plantas distintas, respectivamente de nomes científicos Equisetum Pandanus Montanus, e o contexto sugere que se fossem reduzidas a pó e aplicadas com um propósito medicinal, não teriam qualquer espécie de efeito. Admita-se que não fomos testar, por motivos de tempo, mas a ideia dos Pós de Perlimpimpim remete-nos, portanto, para um tempo em que se acreditava mais numa medicina assente na virtude das plantas e na sua capacidade para curar (quase) tudo. É natural que isso tenha levado, na altura, muita gente a criar “pós” e “mistelas” sem quaisquer efeitos reais, mas que soavam muito bem a quem delas ouvia falar!

 

 

Os tais Pós de Perlimpimpim são, portanto e para se esclarecer o tema de uma vez por todas, uma mistura de duas plantas que, na verdade, não surtia qualquer efeito medicinal. Não é fácil apontar precisamente quando surgiu a expressão, mas pelo menos já existia na França de 1750. E, no fim de contas, talvez os tais pós sejam mesmo e apenas isso: o mito perfeito de uma poção que não serve para nada, mas que resiste há séculos só porque todos, no fundo, ainda gostamos de acreditar num bocadinho de magia nas nossas vidas.

O mito dos Dalgyal Gwishin (e o Noppera-bo)

Na mitologia coreana, um gwishin não é senão uma espécie de espírito ou fantasma. Existem várias versões para explicar a sua génese e evolução, com a mais comum a dizer que estes seres são espíritos de pessoas falecidas a quem não foram prestados os devidos rituais fúnebres. Nesse sentido, a sua ideia geral pouco se parece afastar de algumas crenças ocidentais para circunstâncias semelhantes, e nem sentiríamos a necessidade de dedicar quaisquer linhas ao tema. Porém, o ponto digno de interesse é que os Coreanos acreditam em diversos tipos de espíritos, sendo um dos mais curiosos o Dalgyal Gwishin, que é como quem diz “Fantasma-ovo” ou “Espírito-ovo”.

O mito dos Dalgyal Gwishin

Poderiam perguntar, naturalmente, como é que um fantasma pode ser um ovo, ou um ovo pode adoptar uma forma fantasmagórica. Parece no mínimo estranho, não é…? E, na verdade, não conseguimos encontrar uma versão completamente horizontal que explicasse a génese desta estranha criatura, mas é curioso que este Dalgyal Gwishin exista tanto na Coreia como no Japão (onde adopta o nome de Noppera-bo). Nessa segunda versão, é dito que este yokai – que é como quem diz, “criatura mitológica” – podia ser uma das muitas formas que uma kitsune adoptava para assustar as pessoas. Será que a Gumiho coreana também partilha desse estranho poder? Não sabemos, mas o grande mito associado a ambas as formas do espírito aqui em questão é curiosamente consensual nos dois países.

 

 

Essencialmente, quando alguém vai a passear na rua pode ver, à distância, uma mulher bela que parece estar a chorar e/ou a pedir ajuda. Quando a pessoa se aproxima do local, possivelmente movida por uma certa compaixão, este ser vira-se para ela e demonstra não ter quaisquer feições vísiveis, mas apenas uma espécie de ovo em vez de uma cara. Como é natural, isto assusta tanto a pessoa que ou ela morre ali mesmo, ou fica de tal forma traumatizada que não consegue dormir durante vários dias, acabando por morrer de cansaço.

 

 

Mas as linhas de hoje ainda não acabam aqui. Se encontrámos, no passado, pessoas japonesas que criam já ter visto criaturas como a Kuchisake-onna, convém ainda dizer que nunca encontrámos ninguém que nos tenha dito que viu um Noppera-bo ou um Dalgyal Gwishin. Até conheciam os nomes, sabiam esta história essencial com mais ou menos os mesmos contornos – uma criatura destas até pode ser vista no premiado filme A Viagem de Chihiro, “千と千尋の神隠し” – mas consideravam-na um mito mais do que uma lenda, talvez ligado ao culto dos antepassados, que ainda é muito prevalente em algumas culturas orientais. Por isso, se alguém viu um destes seres, por favor deixe-nos um comentário e conte-nos mais…!

Os feriados locais de Portugal e suas histórias

Se há algumas semanas aqui falámos dos feriados nacionais de Portugal, hoje dedicamo-nos aos locais. Àqueles que são apenas celebrados em determinados municípios, frequentemente por razões da história ou cultura local. Eles são bastantes, pelo que tentaremos não nos esquecer de nenhum. Mais do que simples dias de descanso, estes feriados revelam a alma de cada comunidade: narram batalhas, recordam fundações, evocam santos padroeiros e perpetuam lendas. Cada data é, em si, um fragmento de memória colectiva, que nos ajuda a compreender como tradição e identidade se entrelaçam no tecido cultural português.

Os feriados locais de Portugal

11 de Janeiro (Óbidos)– Celebra a data em que esta vila, e o seu famoso castelo, foram tomados pela última vez aos Mouros, em 1148.

 

13 de Janeiro (Cadaval, Santa Marta de Penaguião, Viana do Alentejo, Vila Nova de Poiares)– Conhecido localmente como a “restauração do município”, este feriado refere-se à data, em 1898, em que estes locais tornaram a ser concelho.

 

14 de Janeiro (Elvas)– Foi nesta data que em 1659 teve lugar a Batalha das Linhas de Elvas, em que os Portugueses venceram os Castelhanos.

 

15 de Janeiro (Santa Cruz, na Madeira)– Dia de Santo Amaro, que até poderá ser uma figura apócrifa, que nunca terá existido realmente.

 

20 de Janeiro (Santa Maria da Feira)– Dia de São Sebastião.

 

22 de Janeiro (São Vicente, na Madeira, e Vila do Bispo)– Dia associado ao santo, celebrado especificamente nesses dois locais.

 

 

2 de Fevereiro (Mourão)– Festa de Nossa Senhora das Candeias, aparentemente representando um tempo de purificação, de 40 dias, pelos quais Santa Maria passou depois do nascimento de Jesus Cristo.

 

10 de Fevereiro (Aguiar da Beira)– Data da “restauração do município”, em 1898.

 

18 de Fevereiro (Valença do Minho)– Festa de São Teotónio.

 

 

1 de Março (Tomar)– Foi, segundo se diz, nesta data que no ano de 1160, Dom Gualdim Pais colocou a primeira pedra do Castelo (Templário) de Tomar.

 

2 de Março (Vila Nova de Paiva)– Data, em 1883, em que esta vila mudou de nome (parece que antes se chamava “Barrelas”) e passou a ser sede de concelho.

 

4 de Março (Manteigas)– Nesta altura se celebra o segundo foral da vila, atribuído neste dia do ano de 1514 pelo rei Dom Manuel I.

 

5 de Março (Ferreira do Alentejo)– Data em que foi atribuído o foral manuelino à vila, em 1516.

 

8 de Março (Montemor-o-Novo)– Dia do nascimento de São João de Deus (nascido “João Cidade”), no ano de 1495, nesta mesma cidade portuguesa.

 

12 de Março (Monção)– Data, em 1261, em que esta vila obteve o seu foral, por parte do rei Dom Afonso III.

 

19 de Março (Póvoa de Lanhoso, Santarém, Torre de Moncorvo, Vizela)– Nos três primeiros é aqui que se celebra o dia de São José, enquanto que no último se celebra a data em que, no recente ano de 1998, Vizela se tornou município.

 

 

1 de Abril (Lisboa)– Celebração de todos os políticos portugueses, tem lugar na capital do país.

 

2 de Abril (Alpiarça)– Data em que esta vila se tornou sede de concelho, em 1914.

 

6 de Abril (Fronteira)– Foi nesta data que em 1384 aqui teve lugar a Batalha dos Atoleiros, que os Portugueses venceram contra Castela.

 

10 de Abril (Pampilhosa da Serra, Tábua)– No primeiro caso, é aqui celebrada a criação do concelho nesta vila, que teve lugar em 1385 por Dom João I. No segundo, trata-se da restauração da comarca, em 1973.

 

11 de Abril (Lagoa, nos Açores)– Data da elevação desta povoação a vila e sede de concelho, no ano de 1522, por Dom João III.

 

23 de Abril (Velas)– Dia de São Jorge, por ele se tratar do santo padroeiro da vila e da própria ilha de São Jorge.

 

26 de Abril (Belmonte)– Data em que foi celebrada a primeira missa no Brasil, no ano de 1500. A celebração local deve-se ao facto de Pedro Alvares Cabral ter nascido nesta vila.

 

 

2 de Maio (Arouca)– Celebra-se a Rainha Santa Mafalda, enquanto padroeira deste concelho.

 

3 de Maio (Barcelos, Sernancelhe)– No primeiro caso, celebra-se um milagre com uma cruz preta que foi vista no chão, em 1504, razão pela qual se lhe dá o nome de Festa de Santa Cruz. No segundo, é então celebrado o foral da vila, que data de 1124, por parte de Egas Gudesendiz.

 

4 de Maio (Sesimbra)– É a festa de Nosso Senhor Jesus das Chagas, padroeiro dos pescadores e da própria vila.

 

8 de Maio (Machico, Murça)– Em ambos os casos se celebra a criação dos respectivos muncípios, respectivamente em 1440 e 1224. No primeiro caso a capitania foi doada a Tristão Vaz Teixeira pelo Infante Dom Henrique, e no segundo o foral foi atribuído por Dom Sancho II.

 

12 de Maio (Aveiro)– Festa de Santa Joana Princesa, padroeira da cidade.

 

13 de Maio (Vila Real de Santo António)– Celebração do dia em que se tornou cidade, em 1988.

 

14 de Maio (Vouzela)– Festa de São Frei Gil, que aí nasceu por volta do ano de 1190.

 

15 de Maio (Caldas da Rainha)– Data da fundação desta cidade pela Rainha Dona Leonor, em 1511.

 

16 de Maio (Fafe)– Celebração das Feiras Francas, talvez pelo seu contexto cultural no local.

 

20 de Maio (Vinhais)– Data da concessão do foral a esta vila, por Dom Afonso III em 1253.

 

21 de Maio (Vila Nova de Foz Côa)– Mais um foral, desta vez por Dom Dinis em 1299.

 

22 de Maio (Leiria)– Criação desta diocese, em 1545.

 

23 de Maio (Celorico da Beira, Portalegre)– No primeiro caso celebra-se o nascimento de Sacadura Cabral (em 1881), e no segundo a data de elevação a cidade por Dom João III, em 1550.

 

25 de Maio (Mirandela, e Santana, na Madeira)– Nesse primeiro local é celebrado o foral de Dom Afonso III, em 1250. No segundo, a fundação do próprio município, em 1835.

 

29 de Maio (Trancoso)– Celebração de uma batalha que aqui teve lugar em 1385. É hoje conhecida por Batalha de São Marcos (por ter tido lugar num sítio chamado Alto de São Marcos), ou Batalha de Trancoso.

 

 

1 de Junho (Miranda do Corvo, Palmela, São Brás de Alportel)– Três locais, três celebrações completamente distintas. A primeira refere-se ao nascimento de José Falcão (em 1841), a segunda ao foral manuelino (em 1512), e a terceira à elevação a município (em 1914).

 

7 de Junho (Oeiras)– Fundação do município, em 1759.

 

9 de Junho (Montalegre)– Data da atribuição do foral por Dom Afonso III, em 1273.

 

13 de Junho (…)– De Aljustrel e Alvaiázere até Vila Real e Vila Verde, passando por Cascais e Lisboa, é nesta data celebrada o Dia de Santo António. Ele é o padroeiro, ou pelo menos um dos principais padroeiros, dos vários locais que o celebram nesta data.

 

14 de Junho (Abrantes)– Elevação a cidade, em 1916.

 

16 de Junho (Espinho, e Olhão)– No primeiro caso celebra-se a elevação a cidade, em 1973. Já no segundo, este foi o dia da chamada “Revolta de Olhão”, contra os Franceses, que teve lugar em 1808.

 

20 de Junho (Corvo, nos Açores, e Ourém)– Elevação a vila, em 1832, e elevação a cidade, em 1991, respectivamente.

 

22 de Junho (Vila Pouca de Aguiar)– Data do foral manuelino, em 1517.

 

24 de Junho(…, Porto Santo, Sertã)– É nesta data que, em diversos concelhos no norte de Portugal, é celebrado o Dia de São João Baptista, aparentemente como padroeiro – ou um dos… – desses vários locais. Porém, em Porto Santo celebra-se a criação do município (em 1835), e na Sertã… lemos diversas possíveis explicações, mas uma das mais interessantes prende-se com o nascimento, nessa região, de Nuno Álvares Pereira, no ano de 1360.

 

28 de Junho (Barreiro)– Celebrada a elevação a cidade, em 1984.

 

29 de Junho (…, Lages do Pico)– Em diversas povoações, é aqui celebrado o Dia de São Pedro, enquanto padroeiro regional. Já nas Lages do Pico, na região dos Açores, celebra-se a atribuição de um foral, que teve lugar em 1501.

 

 

2 de Julho (Almeida)– Celebração da Batalha do Côa, contra os Franceses, nesta data de 1810.

 

3 de Julho (Seia)– Data da elevação a cidade, em 1986.

 

4 de Julho (Castanheira de Pêra, Coimbra)– A celebração no primeiro caso deve-se à criação deste novo concelho em 1914. Já no segundo, a data é a da translação das relíquias de Santa Isabel de Portugal, para o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, em 1677.

 

7 de Julho (Figueira de Castelo Rodrigo)– Celebração da chamada “Batalha da Salgadela”, ou de Castelo Rodrigo, que aqui teve lugar contra os Espanhóis em 1664.

 

8 de Julho (Amarante, Chaves)– Data de elevação a cidade, no primeiro caso (em 1985), e no segundo caso celebra-se o episódio histórico dos “Defensores de Chaves”, num combate local entre forças monárquicas e republicanas.

 

10 de Julho (Miranda do Douro)– Elevação a cidade por Dom João III, em 1545.

 

11 de Julho (Arcos de Valdevez, Santo Tirso)– Celebração do santo padroeiro, que é São Bento.

 

17 de Julho (Penacova)– Data de nascimento de António José Almeida.

 

18 de Julho (Nordeste, nos Açores)– Data da fundação do município, em 1514.

 

22 de Julho (Madalena, nos Açores, e Porto Moniz, na Madeira)– Santa Maria Madalena, a padroeira de ambos estes locais, é celebrada nesta data.

 

24 de Julho (Condeixa-a-Nova, Pedrógão Grande)– Santa Cristina, a padroeira de ambos os locais, é aparentemente celebrada nesta data.

 

25 de Julho (…)– Diversas freguesias celebram São Tiago, São Tomé e São Cristóvão nesta data, por terem os respectivos santos como seus padroeiros.

 

26 de Julho (Loures)– Foi nesta data que em 1886 o respectivo concelho foi criado.

 

 

10 de Agosto (Paredes de Coura, Vimioso)– Data de celebração do padroeiro local, São Lourenço.

 

11 de Agosto (Praia da Vitória, nos Açores)– Celebração da Batalha da Praia da Vitória, que teve lugar em 1829, entre Miguelistas e Liberais.

 

13 de Agosto (Góis)– As diversas fontes consultadas dizem que é aqui celebrada a “doação das terras de Góis a Anaia Vestrares”, também conhecido por Anião de Estrada, numa data muito vaga antes do ano de 1130.

 

14 de Agosto (Batalha)– Celebração da famosa Batalha de Aljubarrota, que aqui teve lugar no ano de 1385.

 

16 de Agosto (Peso da Régua, Ribeira de Pena, São Roque do Pico, Vila Viçosa)– Nos dois primeiros casos, celebra-se a Nossa Senhora do Socorro, a padroeira local. No terceiro, é o próprio São Roque o celebrado. E, no quarto, é o nascimento de Couto Jardim, médico local, o responsável pela celebração.

 

17 de Agosto (Coruche)– Nossa Senhora do Castelo, a padroeira local, é aqui a celebrada.

 

19 de Agosto (Esposende)– Criação do respectivo concelho (ou vila), por parte de Dom Sebastião, em 1572.

 

20 de Agosto (Albufeira, Alcobaça, Sátão, Viana do Castelo)– No primeiro caso é celebrado o foral de Dom Manuel I, datado de 1504. No segundo e terceiros, é celebrado São Bernardo, padroeiro local. E, finalmente, no quarto caso celebram-se as Festas de Nossa Senhora da Agonia, a padroeira da cidade.

 

21 de Agosto (Funchal)– Celebra-se nesta data a elevação a cidade em 1508, por decreto de Dom Manuel I.

 

22 de Agosto (Bragança)– Festa de Nossa Senhora das Graças, padroeira da cidade.

 

24 de Agosto (Baião, Ponte da Barca, Vila Flor)– Estes três locais celebram São Bartolomeu, que, naturalmente, é o seu padroeiro.

 

25 de Agosto (Penalva do Castelo, Pinhel)– No primeiro caso celebra-se São Genésio, o padroeiro, e no segundo a elevação a cidade, em 1770, no tempo do Rei Dom José I.

 

28 de Agosto (Barrancos)– Celebração de Nossa Senhora da Conceição, padroeira local.

 

29 de Agosto (Aljezur)– Tem lugar uma festa conhecida por “Banho Santo”, que poderá ter sido, anteriormente e na cultura popular, uma espécie de banho de purificação.

 

 

3 de Setembro (Silves)– Tomada da cidade aos Mouros, em 1189.

 

7 de Setembro (Arganil, Faro, Vendas Novas)– No primeiro destes locais celebra-se a Festa de Nossa Senhora do Mont’Alto. Nos dos restantes, respectivamente, a elevação a cidade (em 1540, por Dom João III), e a criação do concelho (1962).

 

8 de Setembro (…)– Pelo país fora existem bastantes “Nossas Senhoras” que são padroeiras locais e celebradas nesta mesma data. Isto poderá gerar uma questão – porquê? Essencialmente, porque esta é a data religiosa da Natividade de Nossa Senhora, ou seja, a data em que tradicionalmente se acredita que a mãe de Jesus Cristo nasceu.

 

11 de Setembro (Amadora)– Data da criação deste concelho, em 1979.

 

15 de Setembro (Fundão, Setúbal)– O primeiro celebra Santa Luzia, enquanto que o segundo festeja o nascimento de Bocage, em 1765.

 

16 de Setembro (Tondela)– Festejo de Santa Eufémia, a padroeira local.

 

19 de Setembro (Vila de Rei)– Data do foral de Dom Dinis, em 1285.

 

20 de Setembro (Ponte de Lima)– Festejos em hora de Nossa Senhora das Dores.

 

21 de Setembro (Sever do Vouga, Soure, Viseu)– Celebrações a São Mateus.

 

22 de Setembro (Sardoal)– Celebração da data do foral de Dom Manuel I, em 1531.

 

29 de Setembro (…)– Diversas vilas e freguesias celebram nesta data São Miguel Arcanjo, frequentemente como o seu padroeiro.

 

 

1 de Outubro (Vila Nova de Cerveira)– Data do foral de Dom Dinis, em 1321.

 

4 de Outubro (Câmara de Lobos)– Criação deste município, em 1835.

 

7 de Outubro (Oliveira de Frades, Oliveira do Hospital)– No primeiro celebra-se a restauração do concelho, em 1837, enquanto que no segundo se celebra, estranhamente, o recebimento da notícia da Implantação da República.

 

11 de Outubro (São João da Madeira)– Data da elevação a cidade, em 1985.

 

15 de Outubro (Mogadouro)– Esta data é conhecida localmente como a “Feira dos Gorazes”, com origens incertas, mas que parece ser caracterizada pela existência de muita comida.

 

20 de Outubro (Covilhã, Terras do Bouro)– A primeira foi elevada a cidade em 1870, enquanto que o segundo local obteve nesta data o seu foral, por Dom Manuel, em 1514.

 

22 de Outubro (Grândola)– Data do foral, de Dom João III, datado de 1544.

 

27 de Outubro (Lagos)– Celebração de São Gonçalo de Lagos, padroeiro local.

 

 

6 de Novembro (Boticas, Paços de Ferreira, Rio Maior, Valpaços)– Todos estes concelhos foram criados ou restaurados na mesma data, em 1836, por Dona Maria II.

 

11 de Novembro (Alijó, Mêda, Penafiel, Pombal, Torres Vedras)– A festa de São Martinho tem uma especial celebração nestes locais.

 

19 de Novembro (Odivelas, Trofa)– Data da criação de ambos os municípios, em 1998.

 

23 de Novembro (Gavião)– Data do foral de Dom Manuel I, em 1519.

 

24 de Novembro (Entroncamento, Sines)– O primeiro destes locais tornou-se cidade nesta data de 1945, enquanto que o segundo foi aí tornado vila por Dom Pedro I, em 1362.

 

25 de Novembro (Calheta)– Festejos a Santa Catarina de Alexandria, a padroeira local.

 

27 de Novembro (Guarda)– Data do foral de Dom Sancho I, em 1199.

 

30 de Novembro (Mesão Frio)– Festa dedicada a Santo André, o padroeiro local.

 

 

11 de Dezembro (Portimão)– Data da elevação a cidade, em 1924.

 

26 de Dezembro (Madeira)– “Primeira Oitava”, um feriado que data de 2002, explicado no Decreto Legislativo Regional n.º 18/2002/M com as seguintes palavras – “comemorações natalícias, que, aqui, desde há muito que se costumam prolongar pelo dia popularmente conhecido por «primeira oitava», ou seja, o dia 26 de Dezembro. Por esta razão, tal dia tem sido comummente observado como feriado. Urge, pois, dar a tal prática o devido enquadramento legislativo.”

 

 

Em suma, o que podemos concluir de todos estes feriados locais? No seu geral, eles focam-se ora em festas religiosas, muito mais populares em outros tempos, ou em eventos históricos que foram tendo lugar nos seus perímetros geográficos. No fundo, estes feriados locais revelam muito mais do que simples datas no calendário: mostram como cada município construiu a sua própria identidade, celebrando santos, batalhas, forais ou figuras notáveis. Juntos, compõem um verdadeiro mapa da memória colectiva portuguesa, onde tradição e história se cruzam. Se os feriados nacionais nos unem, os municipais lembram-nos que a riqueza de Portugal também se encontra na diversidade das suas terras e das suas gentes.

O ridículo mito do Bonacho (ou Bonnacon)

Talvez, mais que tudo, o Bonacho – ou Bonnacon, se preferirem – seja um bom exemplo de como o significado das palavras foi sendo alterado ao longo dos séculos. Se alguém, nos dias de hoje, pegar num dicionário como o da Priberam e procurar esta palavra por lá, depressa será informado que este animal se trata somente de um bisonte. E ele era representado assim na Idade Média:

O mito do Bonacho ou Bonnacon

Poderia ser uma imagem medieval como tantas outras, mas ao prestar-se alguma atenção, pode ser visto que o homem está a proteger-se com um escudo, apesar do próprio animal estar virado para a direcção oposta. Além disso, algo de estranho, de difícil de compreender, se parece estar a passar na zona traseira deste animal, mesmo em frente ao escudo protector. Fora do contexto original, tudo isto é bastante difícil de compreender, mas… na verdade, o Bonacho era uma criatura que se acreditava existir em terras menos acessíveis aos comuns mortais, e caracterizada por cornos pequenos e uma sua capacidade de expelir inquietantes projécteis pelo traseiro, que conseguiam percorrer mais de 600 metros de distância, conforme nos informou Plínio o Velho. Daí ele ser representado assim, num pleno ataque que o visualizador poderá nem sempre compreender.

 

 

Igualmente interessante poderá ser o facto de que se dizia que, face aos seus cornos muito pequenos, esta criatura não conseguia utilizá-los para atacar ninguém (e daí precisar da estranha capacidade referida acima). Talvez tenha sido isso que inspirou os primeiros visitantes da América a dar o nome que deram ao animal outrora muito comum no local? É claro que ele não tem a estranha característica do original, mas poderão ter sido os pequenos cornos a influenciarem esse nome…

As Viagens de Marco Polo – entre o mito e a realidade

O livro das Viagens de Marco Polo é daquelas obras que, apesar da sua enorme importância cultural, esquecemos ao longo dos anos. Acontece (!), nem sempre é possível reler e apresentar por aqui todas as grandes obras  que foram mudando o nosso mundo, apesar de esta já aqui ter sido mencionada antes, por exemplo, em relação ao destino final dos três Reis Magos ou ao segredo do Unicórnio. Esta é, sem qualquer dúvida, uma obra que já foi muitíssimo famosa, mas será que ainda tem alguma importância para os dias de hoje? Foi precisamente para tentar responder a isso que nos dedicámos à sua releitura.

As Viagens de Marco Polo

Esta obra das Viagens de Marco Polo pode, na sua essência e para estas nossas linhas, ser dividida em cinco partes, que não são as originais. A primeira delas apresenta, de uma forma breve, a figura do viajante – não foi apenas ele o autor da obra, mas foi ele que a ditou a um Rustichello da Pisa, quando ambos estavam presos – e a forma como ele teve acesso a tudo o que conta no decorrer do texto. É, verdadeiramente, um prefácio essencial para que se possa compreender o contexto de toda a obra.

 

A segunda parte explica como é que este Marco Polo se dirigiu para a corte de Kublai Khan, em meados do século XIII, e vai contando o que este homem foi vendo pelo caminho. A essa se segue uma terceira parte, na qual nos são contadas as desventuras deste homem em terras da China, tanto ao nível de viagens físicas como da cultura local, preservando esta obra, por exemplo, aquela que parece ser uma das mais antigas referências ocidentais ao “dinheiro em papel” chinês. Essas “notas”, como lhes chamamos hoje, só viriam a ser implementadas na Europa centenas de anos mais tarde!

 

A quarta parte conta-nos um pouco das suas viagens nas ilhas de um contexto asiático, nomeadamente o que viu em terras de Zipango / Cipango, o actual Japão. E, para terminar, uma quinta e última parte refere, de uma forma mais breve, alguns dos confrontos em que o país de Kublai Khan se encontrou envolvido.

 

 

No decurso de todos esses capítulos, Marco Polo e o autor que se lhe encontra bem associado vão contando ao leitor todo um conjunto de coisas que o primeiro diz ter visto, e que vão desde tradições locais, até a descrições geográficas, passando por coisas que, na época, poderiam parecer completa fantasia. Seriam verdade? Ou, perguntando melhor, terão sido elas verdade? Se muitos dos capítulos da obra, quando colocados em contexto, poderiam soar a falso, hoje já podemos afirmar que a maior parte da obra tem um conteúdo bem real, falando-nos de coisas que Polo só poderia ter sabido ao viajar, de facto, pelos locais que diz que visitou. E, de facto, até existe uma espécie de lenda italiana que diz que os familiares deste viajante lhe pediram, quando estava prestes a falecer, que lhes contasse a verdade, que dissesse que as famosas viagens eram mentira… ao que ele respondeu que não só contou a verdade, como nem chegou a contar metade do que viu!

 

 

Por toda esta informação poderíamos supor que as Viagens de Marco Polo foram uma obra maçuda, com dezenas e dezenas de páginas de descrições que já pouco ou nada nos importam, mas o que elas têm de interessante passa pelo facto de ele nos dar, em alguns casos, informação que pode ser verificada como real. Ele fala de uma guerreira de nome Khtulun, uma espécie de Atalanta medieval, que defrontava os homens que queriam casar com ela, mas que ela insistia em vencer – e, contrariamente à heroína dos Gregos, nunca parece ter sido vencida nesse combate. Ou fala de um suposto túmulo de São Tomé na Índia – é hoje a Basílica de São Tomé, em Chenai. Ao mesmo tempo, aqui e ali relata algumas coisas que não parecem ser reais, como a existência de duas ilhas, uma populada só por mulheres e outra só por homens, que lá tinham as suas interacções ocasionais.

 

 

O que dizer, então, destas Viagens de Marco Polo? Será que é uma obra que ainda merece ser lida, mais de setecentos anos após a sua escrita? Como no caso da famosa obra de Galileu, tudo depende do leitor, e do seu potencial interesse em conhecer textos que mudaram o mundo. Este não é, admita-se, um livro que mude a vida do seu leitor, nem um Consolo da Filosofia, mas é interessante na medida que permite ter acesso a um mundo que, para nós e na Idade Média, estava completamente oculto nas trevas. Se lido numa edição com bons comentários, o leitor até pode comparar a “ficção” com a realidade, tornando-lhe possível conhecer um pouco melhor este nosso mundo. Não é essa uma cultura geral, e uma diversidade de ideias, que hoje muito se prega?