Uma influência do mito de Circe

Circe é talvez uma das mais famosas feiticeiras da cultura ocidental, sendo famosa da Odisseia homérica. Dizia-nos aí o poeta que esta transformava os homens que visitavam a sua ilha em animais, e a subsequente moralização desse mito deu-lhe uma visão que se tornou popular na Idade Média, em que as transformações desta figura apenas revelavam o que as pessoas já tinham no seu interior; por exemplo, um homem impiedoso poderia tornar-se um lobo, um homem que liga demasiado à beleza um pavão, uma mulher que vendia o seu corpo uma loba, e assim por diante. A imagem abaixo provém de uma tal reinterpretação do mito, presente na série nipónica Zyuranger.

Esta monstruosa figura, a que na série chamavam “[Dora]Circe”, era um porco glutão numa forma quase humana. Poderia pensar-se que a ligação ao mito é muito ténue, mas o mesmo episódio cedo afasta essa ideia; quando os heróis tentam recolher mais informação sobre a criatura, o seu mentor reconta-lhes parte do mito de Odisseu e Circe, apontando a forma como esse herói grego derrotou a feiticeira recorrendo a uma erva mágica. É seguindo a mesma ideia que os heróis acabam por destruir este monstro, numa sequência cujas múltiplas interrelações com o mito estão bem à vista.

“O falecido Adónis”, de autoria desconhecida

A morte de Adónis

A paixão de Afrodite pelo belo Adónis é provavelmente um dos mais famosos mitos da Antiguidade. Também o é o desfecho de toda a história, em que o belíssimo jovem é morto por um javali, mas muito mais inesperado é o breve tratamento que este pequeno poema dá ao tema (pode ser lido, em grego e inglês, aqui). Nele, a deusa do amor manda capturar o javali, provavelmente com vista a fazê-lo pagar pelo seu crime; no entanto, o atemorizado animal explica-lhe que nada de mal desejava ao jovem, pedindo as maiores desculpas e dizendo que não queria mais do que acariciar aquele ser tão belo que tinha visto à sua frente, acabando por magoá-lo sem querer. Cheia de compaixão, a deusa perdoou o animal e deixou que este se juntasse ao seu séquito.

 

Face a uma tão invulgar versão deste mito, somos obrigados a interrogar-nos sobre as suas potenciais fontes. Seria esta uma invenção de um autor de identidade desconhecida, ou estava assente numa tradição a que já não temos acesso? Esta pequena sequência certamente que destoaria numa tragédia, sendo muito mais provável que, como no caso do porco que falou com Odisseu, se tenha tratado de uma sequência que não fazia parte do mito original.

O mito de Estentor e a breve importância dos escólios

Imagem que claramente não é Estentor

É provável que nunca tenham ouvido falar do mito de Estentor, essencialmente pelo facto de esta se tratar de uma figura mitológica menor. Deste herói sabemos, somente através da Ilíada, que tinha uma voz tão poderosa como a de cinquenta homens. Interessante, claro, mas igualmente muito pouco satisfatório, seja para a trama do épico ou para um maior conhecimento por parte do leitor.

 

Porém, é em momentos como estes que podemos ver a grande importância dos escólios presentes em algumas das obras da Antiguidade. Sobre essa passagem do quinto livro da Ilíada é-nos adicionado um elemento que, apesar de pequeno, acrescenta bastante à história – parece que este Estentor, após o término da Guerra de Tróia, decidiu desafiar o deus Hermes para um concurso de gritos. Naturalmente que perdeu, mas a forma como isso levou à sua morte já não nos é explicado.

 

Existem bastantes tipos de informações que podem ser encontradas em escólios, desde curiosidades gramáticas até histórias como estas; infelizmente, também não existem publicados em tradução, seja inglesa ou portuguesa. São, por isso, muitas vezes de difícil acesso, mas quem a eles tenha acesso também lá pode encontrar conteúdo muito inesperado!

A derradeira infidelidade de Penélope

O encontro de Penélope com Ulisses

Penélope, esposa de Ulisses, é particularmente famosa da Odisseia e da Mitologia Grega graças à sua enorme fidelidade, mesmo após duas décadas de ausência do herói. Contudo, existem, nesta e naquela fonte menos conhecida, diversas referências a potenciais infidelidades da sua parte. Não valerá a pena recordá-las a todas – pobre Penélope! – mas existe uma tão curiosa que não poderíamos deixar de a mencionar por cá.

 

Segundo um dos fragmentos de Dúris de Samos, posteriormente reaproveitado em obras como as de Pseudo-Nono, esta personagem mitológica, Penélope, tinha sido mãe de Pã. Mas quem era o pai? Jamais acertariam na resposta, porque se tratava… de todos os pretendentes da heroína, como se ela se tivesse envolvido sexualmente com todos eles e daí fosse gerado um único filho. Essa possibilidade merece ser contrastada com a do mito de Alcmena, que envolvendo-se com Zeus e Anfitrião numa mesma noite, gerou dois filhos, um do deus e outro do marido.

 

Mas de onde vem uma tão absurda possibilidade? Provavelmente da etimologia – Pan significava “todos”, e por isso uma potencial traição com todos poderia vir a gerar, simbolicamente, esta criatura. E assim, a derradeira infidelidade de Penélope ficou imortalizada numa espécie de estranho mito…

O mistério de Araisodaro

Imagem da Quimera

Muitos são os grandes mistérios escondidos em breves versos da Ilíada, mas este é especialmente intrigante. No livro XVI dessa obra, por volta dos versos 325-330, é mencionada a monstruosa Quimera, que pode ser vista na imagem acima. Sobre ela, o poeta rapidamente acrescenta que o monstro destruidor de homens foi cuidado por um tal “Araisodaro”; dele sabemos apenas que tinha filhos e que era rei, mas… para que cuidou ele de uma tal criatura? Nenhum outro autor o parece explicar… seria um animal de estimação?