Quando terminou a Idade dos Heróis?

O Mito das Idades, que ainda nos é muito bem conhecido do relato de Hesíodo, já cá foi falado há quase 10 anos (ver aqui). Porém, esse mito também tem um outro aspecto menos conhecido. O autor fala-nos de cinco idades – as de Ouro, Prata, Bronze, dos Heróis, e de Ferro – mas poucos saberão que a sequência das quatro primeiras era abordada, de uma forma supostamente contínua, nos vários poemas do Ciclo Épico. Como sabemos do relato de Proclo, essa associação começava com a união de Urano e Gaia (ainda antes da Idade de Ouro) e terminava com a morte de Ulisses, um evento específico que marcava o término da Idade dos Heróis.

 

Era com a morte do grande herói da Odisseia homérica que terminava o período mitológico e começava o mundo em que todos os seres humanos então viviam. Seriam os próprios poemas de Hesíodo parte do antigo Ciclo Épico? Não sabemos, infelizmente, mas até faria sentido que assim o fosse.

Filme “La Caduta di Troia”

Abaixo pode ser visto o filme La Caduta di Troia, um dos primeiros sobre o conflito entre Troianos com Gregos. Principia com o rapto de Helena e termina com a destruição da cidade, mas ao combate é dado uma ênfase muito pequena. Veja-se também que a própria trama é somente vagamente baseada nas fontes literárias que temos, com Páris a morrer aquando da queda da cidade. Esperamos que gostem de recordar este filme de outros tempos!

O mito de Nyx, deusa grega da noite

O mito de Nyx, figura também conhecida como Nix ou a Noite, é o de uma deusa da Mitologia Grega associada à noite mas sobre a qual, realisticamente, muito pouco alguma vez nos é dito. Na verdade, a principal fonte de informação sobre ela é o poeta Hesíodo, que na sua famosa Teogonia nos diz, essencialmente, que esta figura nasceu do Caos, antes de se unir a Érebo, seu irmão. Autores posteriores foram-lhe dando os mais diversos filhos, mas salvo uma breve aparição na Dionisíaca de Nono de Panopólis, Nyx é um conceito disforme, mais do que uma deusa antropomórfica que tenha participado em diversos mitos.

Nyx, a noite

Contudo, uma falta de informação real em relação a esta deusa da noite levou a um desenvolvimento inesperado nos nossos dias – se ela raramente aparece de uma forma palpável nos mitos gregos ou latinos, mas o seu nome até aparece frequentemente em rituais mágicos da Antiguidade, surgiu a necessidade de lhe dar uma forma palpável. Essa ideia de magia, de uma potencial ligação ao oculto (que, deixe-se claro, não acontecia em nenhum dos nos mitos originais), associada à escuridão e ao seu carácter de deusa da noite, leva a que ela seja – hoje – representada com um aspecto gótico, como se de uma feiticeira nocturna se tratasse, que são características que ela não tinha originalmente. Na verdade, tentar representar a deusa Nyx seria o mesmo que tentar fazer um desenho da Paz, da Dor ou da Felicidade – dificilmente o podemos fazer, porque são meros conceitos sem uma forma humana, vindo a ideia de que são do sexo feminino somente do facto de serem palavras femininas – e pouco ou nada mais!

 

Por isso, quem quisesse representar Nyx, a Noite, deveria fazê-lo como uma mera folha completamente pintada de preto, porque era assim que os Antigos a viam. Tudo o resto é pura e mera imaginação dos nossos dias, e nada mais!

O mito de Marsias

O mito de Marsias é constituído por duas partes, ambas tão intimamente ligadas que só poderão ser tratadas em conjunto.

 

É-nos dito que Atena inventou o aulo, uma espécie de flauta dupla*, mas que rapidamente ficou descontente com a forma como tocar esta invenção inchava as suas bochechas, o que – segundo algumas versões – também a tornava motivo de chacota entre os deuses. Assim, descartou o instrumento, que rapidamente foi apanhado por Marsias, um sátiro.

 

Mais tarde, Marsias usou este mesmo instrumento para desafiar Apolo para um concurso de música. Como é comum nesses desafios, o deus conseguiu derrotar o seu opositor. Depois, castigou-o, prendendo-o a uma árvore e arrancando-lhe a pele ou os membros, dando o sangue desta figura o nome a um curso de água próximo.

 Apolo e Marsias

Não é totalmente claro o porquê específico desta horrenda vingança por parte do deus, mas quase todas as versões do episódio mencionam-na, deixando claro que era um elemento muito famoso do mito de Marsias. Outras versões dizem, por exemplo, que um dos juízes do concurso foi o Rei Midas, levando-o a obter as famosas orelhas de burro, mas o cerne estático do episódio é como descrito acima, com alguns autores a adicionarem diversos elementos à história.

 

 

*- Uma versão muito pouco conhecida de toda esta história adiciona que a deusa inventou este instrumento para assim poder imitar as horrendas vozes das Górgones.

Existe alguma ninfa do fogo?

Recentemente, alguém procurou neste espaço informação sobre uma possível ninfa do fogo. Será que elas existem? Aparecem em muitos videojogos, mas tanto quanto se sabe não existia nenhuma nos mitos da Antiguidade; as ninfas, no seu geral, estão associadas a determinados espaços naturais, como rios ou árvores, mas em relação ao fogo, em si, este é considerado como uma entidade totalmente distinta, que não era habitada por qualquer divindade. Até existem deuses associados ao fogo – Hefesto, por exemplo – mas nenhum deles é considerado como a própria representação do fogo, enquanto elemento natural.

 

Então, porque foi feita esta pergunta? Muitas poderão até ser as razões, mas uma das mais óbvias prende-se com o facto de diversos jogos de computador terem como personagens “ninfas do fogo”, entre variadíssimas outras criaturas mitológicas. Porém, essas figuras não advêm dos mitos antigos, tratando-se de simples readaptações de figuras já conhecidas a novos contextos. Entre muitas outras, figuras como Cérbero, as Erínias, a Medusa, a Quimera, também tendem a surgir nesses jogos, em formas nem sempre consistentes com as dos antigos mitos.