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Mitologia em Português

26 de Julho, 2021

A verdadeira origem do nome do Chiado

Qual é, na verdade, a origem do nome do Chiado lisboeta? "Ele veio de um poeta" - diriam alguns - "até existe uma estátua à saída da estação do metro!" Mas... e se vos dissermos que podem estar enganados? Numa cidade que até ao Terramoto de 1755 esteve tão pejada de nomes religiosos, porque haveria de existir uma zona com o nome de um poeta que, admita-se em toda a verdade, já quase ninguém leu? É a busca por esse significado que aqui iremos apresentar hoje, mas tenha-se em conta que as linhas que se seguem serão longas...

Qual a origem do nome do Chiado?

Portanto, pense-se no seguinte. Historicamente, a termos de dar o nome de um poeta nacional a uma zona de Lisboa, a escolha mais óbvia seria Luís de Camões (com ou sem pala no olho). E falamos até desse autor dos Lusíadas porque no prólogo do seu Auto do El-Rei Seleuco, de meados do século XVI, surge uma frase curiosa da boca de uma das personagens:

Ainda vossas mercês não ouviram uma trova. Faço-as tão bem como o Chiado.

Depreende-se, portanto, que no tempo de Camões, ou um pouco antes, existisse uma figura conhecida pelas suas trovas com este nome real ou alcunha. Visto que esse nome não abunda em Portugal, depreende-se, quase automaticamente, que também tenha sido ele a dar o nome à zona lisboeta - caso encerrado, nesta busca pela origem do nome do Chiado? Não, nem por isso, porque se se pensar mais no tema nota-se o estranho que toda essa possibilidade é, mesmo que se queira supor, como alguns já fizeram, que o poeta tenha vivido na zona - como explicar que um autor de segunda ou terceira linha tenha dado o seu nome a algo no século XVI, quando o grande autor dos Lusíadas não o fez?!

Assim, face a este problema, já outros dizem que o nome veio de um taberneiro lisboeta da época, um tal "Gaspar Dias", que supostamente tinha a sua casa comercial na zona. O que, no entanto, levanta outra dúvida - como é que sabemos isso?! Quer dizer, se alguém associa o nome que buscamos seja ao poeta (que, na verdade, nasceu António Ribeiro), seja a este Gaspar Dias, de onde lhe vem mesmo essa informação? É uma questão verdadeiramente importante, mas que as muitas respostas encontradas na internet e em jornais tendem repetidamente a ignorar...

 

Em busca de uma resposta mais fiável traçámos a fonte dessas informações até finais do século XIX, inícios do XX, altura em que Alberto Pimentel decidiu editar algumas das obras do poeta, então já muito esquecidas. No seu livro Obras do Poeta Chiado, em jeito de prefácio este autor defende, recapitulando as diversas opiniões anteriores, que essa personagem veio para Lisboa em meados do século XVI, depois de abandonar uma vida religiosa, e se tornou tão famosa que acabou por dar nome ao local em que viveu.

Porém, anos mais tarde, no livro O Poeta Chiado, o mesmo autor acrescenta que encontrou um novo documento, que os seus antecessores não consultaram (i.e. foi ele o primeiro a trazer à luz essa informação, permitindo defini-lo como a fonte dessa informação), e que atesta que até circa 1567 tinha vivido em Lisboa, mais precisamente na Rua Direita da Porta de Santa Catarina*, um "Gaspar Diaz o chyado d'alcunha vynhateiro" (ou "Gaspar Diaz Chyado"). Como o autor admite igualmente, não se percebe se a alcunha deste homem era Chyado ou Vynhateiro, mas a presença do artigo "o" na primeira referência, bem como a referência habitual à profissão em documentos da época, pode dar a indicar a primeira hipótese. Infelizmente não conseguimos consultar o próprio documento - ele está na Torre do Tombo mas não se encontra digitalizado (não é caso único) - mas fazendo fé apenas na transcrição parcial de Alberto Pimentel, em lado nenhum é dito que este homem tinha uma taberna (ele parecia fazer ou vender vinho, o que não é bem o mesmo).

Ao mesmo tempo, o autor também encontrou num manuscrito de título Diversas historias e ditos facetos a diversos propositos, que nos diz que "deve ser anterior ao ano de 1617", um conjunto de histórias jocosas referentes a um homem astucioso deste nome. Não as cita directamente, parafraseia algumas delas, não sendo 100% claro pelo seu texto se se referem sempre ao poeta ou também a outra figura; o documento parece estar na Torre do Tombo**, mas entre as várias tramas aí apresentadas conta-se a seguinte, que aqui reproduzimos a puro título de curiosidade:

Passando o Chiado pela porta da Sé viu um grupo de muchachos e, dando-lhes atenção, ouviu-os dizer:
- Eu tomara ser bispo.
- Eu tomara ser papa.
- Eu tomara ser rei.
O "herói", acercando-se deles, interpelou-os dizendo:
- E sabeis vós o que eu tomara ser?
- ...?
- Tomara ser melão, para que me beijardes [no sítio onde se beijam os melões]***.

Essas descobertas levantam três grandes possibilidades... se o nome da zona de Lisboa ainda não parecia existir antes do século XV, quem lhe deu essa designação? O poeta, o vinhateiro, ou uma possível figura popular de identidade incerta? Alberto Pimentel parece resolver o problema identificando o terceiro com o poeta e dizendo que António Ribeiro veio para Lisboa e ficou em casa de Gaspar Diaz, possibilitando uma espécie de transferência de alcunhas... o que é estranho, porque não é por termos um amigo com uma dada alcunha que nos começam a chamar o mesmo! Então, se várias figuras partilhavam esse mesmo nome, de onde vinha ele? Conforme a mesma obra também esclarece, na altura a palavra significava nada mais, nada menos, que "astuto" - algo que tanto o comerciante de vinhos, como o poeta e a figura popular, poderiam ter sido!

 

Portanto, a acreditarmos que viveram mesmo na zona em questão, e que até o possam ter feito na mesma altura, poderá ser isso que contribuiu para a dificuldade em descobrir a identidade da figura por detrás da origem do nome actual. Hoje, quando dizemos "vamos ali a X", depreende-se que esse X tenha lá algo de notável - mas seria uma loja de Gaspar Diaz, ou o local em que um poeta, potencialmente famoso na cultura popular da época por mais do que os seus versos, tinha vivido? Será que alguns poemas eram declamados sob o efeito do dom de Baco, como algumas historietas parecem indiciar vagamente? Será que as figuras até se conheciam? Ou, talvez até mais importante, qual delas tinha um maior potencial para não ser esquecida ao longo do tempo? De uma forma irónica deve notar-se que ambas foram (quase) esquecidas, daí até a dificuldade em saber-se qual delas a mais - e menos - importante... mas, a tratar-se mesmo do poeta, ele poderá ter sido famoso entre o povo não tanto pelos seus versos, hoje quase olvidados, mas por todo um conjunto de histórias populares brejeiras que lhe foram sendo associadas - conforme apontado por Alberto Pimentel, pelo menos uma delas aparece mais tarde também associada a Bocage, dando-nos a perceber que a sua verdadeira origem já estava esquecida na segunda metade do século XVIII.

 

Quando a estátua foi colocada no local, foi-o por se considerar horizontalmente o poeta, o autor de trovas, como a origem do nome popular do Chiado. Mas foi-o quase sem provas reais, porque se depreendeu que o incomum nome só poderia mesmo vir dele. Mas, acreditando então que existiu no local uma loja de vinhos proeminente (o documento já referido acima dá a entender que o seu proprietário e a respectiva esposa tinham posses significativas), será que ela não poderá ter sido, numa dada altura, tão popular que passou a dar o nome à rua em que estava localizada, e que o facto de António Ribeiro também ter vivido lá é pura coincidência? Poderá pensar-se em toda a questão da seguinte forma - quando alguém nos diz "vou ali ao Ronaldo", se a casa do futebolista for em frente a um restaurante com mais de 50 anos que até partilha o mesmo nome, como sabemos nós a que local a pessoa se referia? Sabemo-lo porque a conhecemos, conhecemos os seus hábitos e o seu contexto pessoal... mas no caso aqui em questão, e desconhecendo-se hoje o contexto da época, é difícil conseguir tirar essa conclusão.

 

Assim sendo, qual é a verdadeira origem do nome do Chiado? Numa dada altura do século XVI viveu numa determinada rua lisboeta um Gaspar Diaz, comerciante de vinhos, que tinha essa alcunha - isso é certo! Mas crê-se, agora com menos certezas, que António Ribeiro, poeta e potencial herói de histórias brejeiras, também aí tenha vivido e partilhado a mesma alcunha. É, na nossa opinião, possível que tenha sido a conjugação de todos estes factores que levou ao nome popular da rua, mas também à enorme dificuldade em traçar a sua verdadeira origem. Por isso, afirmar, sem quaisquer dúvidas, que o nome veio mesmo do trovador - hoje quase esquecido, mas um dia também conhecido por meio de algumas aventuras ordinárias - não é completamente certo... e essa é a melhor resposta que temos para dar, pelo menos neste momento!

 

 

*- Pelo contexto depreende-se que tenha sido uma perpendicular à Rua da Misericórdia. A porta em questão, que dava nome à antiga rua, foi demolida no início do século XVIII, mas um pedaço da muralha ainda pode ser visto no interior do número 12 da Rua da Misericórdia.

**- Um enorme agradecimento aos funcionários da Torre do Tombo, que nos permitiram localizar este documento - aparentemente ele é o número 1817 dos manuscritos da livraria, mas ainda não está disponível online. A informação interna apenas informa que a obra em questão inclui "poesias, anedotas e notícias várias".

***- Essa censura partiu do próprio Alberto Pimentel, que admitiu que algumas das histórias presentes no documento eram de natureza "pornográfica".

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