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Mitologia em Português

03 de Novembro, 2021

Huli Jing, a raposa mística chinesa

Há pouco mais de uma semana que um leitor (ou leitora) nos colocou uma questão relativa à Kitsune japonesa, dizendo que queria saber mais sobre outras duas criaturas orientais, a Guimiho e a Huli Jing, que são outras espécies de raposas de terras do Oriente. Na verdade, as três criaturas são muito semelhantes, sendo quase certo que as versões japonesa e coreana - ou, ao menos, algumas das suas características - tenham sido importadas da China, como acontece com muitos outros mitos e lendas do país do sol nascente - até já cá falámos do caso de Yama, deus dos mortos, que também passou por essa difusão intercultural.

Huli Jing, a raposa chinesa

Então, o que é a Huli Jing? É, como já deixamos entender, um dos nomes dados às raposas na China, em que se considera que elas têm até nove caudas e vários poderes místicos, notavelmente o de transformação em seres humanos. Porém, segundo foi possível apurar através de diversas fontes primárias, parece igualmente existir uma nuance curiosa nestas criaturas, que é o facto de se apresentarem, salvo algumas excepções, muito mais viciosas que as suas congéneres nipónicas, talvez por serem representadas como espíritos místicos, mais do que como simples animais... não sendo sequer muito claro se estas criaturas eram mesmo raposas, ou se seriam melhor traduzidas para português como "espíritos místicos de raposas".

 

Por exemplo, na Investidura dos Deuses (uma novela chinesa de título original Fengshen Yanyi), a principal antagonista é Daji, uma criatura como as que discutimos aqui hoje. Ela matou uma mulher, tomou o seu lugar, e ao longo de toda a obra vai usando os seus poderes místicos e de sedução para manipular o grande monarca da época, levando-o a realizar todo um conjunto de actos absolutamente bárbaros que, em limite, o fazem ordenar a morte de três grávidas somente para lhes abrir as barrigas e poder ver a posição das crianças no seu interior (se acham isto sórdido, convém deixar claro que a mesma novela apresenta actos ainda mais horrendos). É, de facto, ela a grande responsável pela eventual queda do monarca e de toda a sua linhagem, através de um conjunto de mais de 10 grandes crimes que fomentou.

Numa outra obra, O que o Mestre Não Discutiu* (no original, com um título alternativo de Zibuyu), existem todo um conjunto de histórias que incluem as Huli Jing, representando-as repetidamente como criaturas maldosas - uma das tramas mais inquietantes apresenta até uma delas a tomar uma forma feminina horrenda e a violar um homem! Felizmente, nem todas parecem ser assim tão más - outra história da mesma fonte alude ao facto de uma raposa se ter tornado uma estudiosa, chegando a fazer exames escolares (o autor até menciona, com alguma ironia, que o interveniente humano da história se esqueceu de perguntar qual tinha sido o tema do exame).

 

Tomando por base diversas fontes primárias significativas da cultura chinesa, em que se incluem as anteriores, foi possível apurar que existem muitas semelhanças entre a Huli Jing e a Kitsune  - são uma espécie de meias-irmãs nascidas em países diferentes - mas a segunda parece resultar de uma evolução da primeira, tornando-se, ao longo dos séculos, uma criatura mais enganadora do que má. Frise-se até, nesse contexto, que se encontrámos vários mitos e lendas chinesas em que esta criatura mística realiza acções profundamente horrendas (demos dois exemplos acima), não encontrámos um paralelismo para isso no Japão - aí, se ela engana muitas pessoas, nunca excede determinados limites e é quase sempre descoberta e derrotada pelos heróis das histórias, o que nem sempre acontece com a criatura chinesa, que chega inclusive a matar pessoas e a sair vitoriosa de muitos confrontos com seres humanos.

 

 

*- Neste contexto "o Mestre" é Confúcio. O título da obra refere-se ao facto do filósofo ter, de um modo geral, deixado os temas místicos de fora das suas obras.

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