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Mitologia em Português

18 de Setembro, 2021

Porque há tanta Maria e João em Portugal?

De um modo geral, ao longo dos séculos os nomes Maria e João foram os mais populares de Portugal, gerando até provérbios locais como "há muitas Marias na terra". Mas então, de onde vem a popularidade de ambos os nomes?

Maria e João, nomes famosos em Portugal

Maria e João são nomes bíblicos. Isto poderia levantar uma primeira questão - quais eram os nomes mais populares na Península Ibérica antes da vinda do Cristianismo? - que teremos de deixar para outro dia, mas de entre os nomes provindos do Novo Testamento, porque se tornaram estes dois assim tão populares? Porque não Salomé, Pedro ou mesmo Jesus? Porquê os nomes da mãe de Jesus e do que se pensa ter sido o "discípulo amado"?

A resposta passa pelo facto de terem existido diversas crenças mágicas e supersticiosas associadas a todos estes nomes. Em terras de Portugal, isso é particularmente evidente na epístola Da Correcção dos Rústicos de São Martinho de Dume, que até criticava o uso dos nomes dos deuses pagãos nos dias da semana. Assim, o que eram inicialmente rituais pagãos foram passando a ser associados a figuras cristãs, e posteriormente aos seus nomes (ver, por exemplo, a lenda de Santo Ovídio). Ainda hoje existem diversas histórias populares que associam os nomes de Jesus, Maria, Pedro e Paulo a relatos extra-bíblicos e fantásticos - vejam-se, por exemplo, os casos de Nossa Senhora e o linguado, da lenda de São Pedro e o cão falante, ou do Quo Vadis...

 

O que isto tem de particularmente importante é o facto de ainda nos terem chegado diversas superstições relativas a esses nomes num contexto nacional. Por exemplo, até há poucos anos ainda se acreditava que caso uma mulher tivesse sete descendentes do mesmo sexo, o sétimo deles se tornava um lobisomem ou uma bruxa - e o truque para evitar essa tenebrosa ocorrência passava, entre outros procedimentos, por dar o nome de Maria a essa filha (ou João a um filho). Outra tradição dizia que a felicidade de uma família estava bem assegurada se um dos filhos se tornasse padre e adoptasse o nome masculino aqui em questão. E ideias como essas, apesar de estarem hoje (quase) perdidas, comprovam que em outros tempos se acreditava que esses dois nomes, entre alguns outros (como Pedro), tinham certas propriedades mágicas. Assim, quando se tratava da hora de dar um nome aos filhos, é provável que muitas pessoas pensassem que, pelo sim, pelo não, mais valia não arriscar, e então continuaram a perpetuar a tradição, muitas vezes até já sem conhecer a sua razão de ser original.

 

Hoje, Maria e João são em Portugal nomes como quaisquer outros. Já ninguém pensa em coisas como as que discutimos acima, mas a popularidade de ambos os nomes mantém-se relativamente estável, numa espécie de homenagem tácita aos que vieram antes de nós.

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