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Mitologia em Português

É provável que a lenda de Yoichi se conte entre as mais famosas do Japão, quanto mais não seja pelo facto de esta figura, através do seu arco, ser aludida em diversos jogos de inspiração nipónica disponíveis no ocidente. Na verdade, ele até é um dos opositores no Google Doodle de hoje, juntamente com um Tanuki, um Tengu, dois Oni, Otohime, Fukuro e os Kijimuna, numa aventura em que também aparecem os famosos Kappa, entre várias outras criaturas do país do sol nascente. Mas então, quem foi o herói a que dedicamos as breves linhas de hoje?

A lenda de Yoichi

Naso no Yoichi era um arqueiro exímio, mas a grande obra Heike Monogatari apresenta-o como uma figura muito humilde e pia, capaz de feitos verdadeiramente impressionantes mas sem que esse poder lhe suba à cabeça. Assim, a mais famosa de todas as suas façanhas passou por derrubar, com uma das suas flechas, um pequeno leque que estava no topo do mastro de um navio, a extensas centenas de metros. Isto até pode soar "fácil", mas as diversas versões da história adicionam-lhe alguns elementos - numa delas o herói fê-lo porque o inimigo o desafiou a tal, procurando testar as suas capacidades, enquanto que noutra teve de o fazer porque esse leque era parte de um subterfúgio, um chamariz, já que abaixo desse mastro estava uma mulher linda a dançar e quando alguém tentava olhar para ela, com evidente curiosidade, os adversários usavam essa oportunidade para o atingir com flechas.

 

Se o mesmo herói também teve outros feitos na mesma guerra do século XII, são secundários face a este episódio em específico. Mas o que lhe aconteceu depois? Segundo aquela que parece ser a versão mais comum da sua lenda, mais tarde ele acabou por se tornar monge e viveu no templo de Sokujo-in Temple, em Kyoto, até ao dia da sua morte. Um túmulo de Yoichi pode ser visto no local, pelo que se um dia estiverem nessa cidade e não tiverem certeza do que visitar, podem sempre ir ao local e recordar esta pequena história...

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Encontrámos há alguns dias uma curiosa lenda de Ono no Komachi. Para que ainda não o saiba, ela foi uma poetisa japonesa do século IX da nossa era, mas parece ter ficado conhecida tanto pela sua arte com as palavras como pela sua beleza física, que se foi tornando proverbial ao longo dos séculos. Nesse sentido, foram também surgindo diversas lendas associadas a ela, e contamos aqui hoje uma das mais espantosas a que tivemos acesso.

Uma lenda de Ono no Komachi

Conta-se então que foram muitos os homens que se apaixonaram por Ono no Komachi, mas ela, bem ciente da sua beleza física, rejeitou-os sempre e a todos. Entre eles contou-se um nobre, a que alguns deram o nome de Fukakusa no Shosho Arihira. Na sua crueldade, gozando-o, esta mulher disse-lhe então que consentiria tornar-se sua amante se ele a visitasse por cem noites consecutivas. Ele, levado pela ilusão, tentou então visitá-la essas 100 vezes, noite após noite. Acontecesse o que acontecesse, noite após noite este homem lá estava, procurando cumprir o desejo da mulher que amava. Mas depois, naquela derradeira 99ª noite, caiu um enorme nevão e este amante morreu congelado. Mas isso pouco ou nada importou a Ono no Komachi, que seguiu a sua vida como antes... até que, muitos anos mais tarde, já na sua velhice, a memória de Fukakusa no Shosho Arihira, e a da sua tenebrosa morte, voltou para a atormentar, noite após noite...

 

Lendas como esta, de amores não correspondidos, são relativamente frequentes por todo o mundo (lembrem-se, por exemplo, os casos de La Llorona ou de Anteros, na versão de Pausânias), mas o que esta lenda de Ono no Komachi tem de especial é mesmo a enorme crueldade da personagem principal, que não se compadece mesmo após o falecimento de um homem que parecia amá-la verdadeiramente. Não obstante esse desprezo, é muitíssimo curioso que existam muitas outras lendas associadas a esta mesma figura, incluindo pelo menos uma em que ela até acaba por casar com Fukakusa no Shosho Arihira. Será que foi inventada por alguém que se decidiu compadecer do pobre coitado? Ou será que na versão original eles até casavam, mas as más línguas é que, ao longo dos séculos, depois lá inventaram a que recontámos aqui? Não temos qualquer certeza, mas na forma como a reportámos aqui, esta é certamente uma lenda triste, que nos deveria relembrar de que jamais devemos fazer aos outros o que não gostaríamos que nos fizessem a nós...

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A lenda de Kiyohime e Anchin, presente num famoso manuscrito japonês chamado Dojoji Engi Emaki, deve ser mencionada por cá mais pela sua forma física do que pelo seu conteúdo simples, já que nos chegou num belíssimo manuscrito ilustrado, com dragões orientais à mistura e tudo.

A lenda de Kiyohime e Anchin

Conta-nos a lenda que a bela Kiyohime se apaixonou por um monge budista, de nome Anchin. Se este segundo também parecia gostar dela, depressa se relembrou dos seus votos religiosos - os monges budistas também têm um voto de castidade, como os cristãos - e decidiu então afastar-se da apaixonada, fugindo dela para longe. Porém, Kiyohime perseguiu-o por vários locais e acabou por transformar-se num dragão quando se preparava para cruzar um rio [recorde-se que os dragões chineses e japoneses estão frequentemente associados à água]. Anchin escondeu-se no interior de um sino de um templo. Desconhecendo a sua presença, a apaixonada circundou esse local várias vezes e cuspiu-lhe fogo durante horas, matando acidentalmente aquele que amava.

Toda a trama poderia ter ficado por aqui, mas uns dias depois os monges do mesmo templo tiveram um sonho muito estranho, em que as duas personagens principais de toda esta história lhes revelaram que numa vida passada tinham sido duas serpentes que se amavam, mas que agora precisavam de ajuda para obter o perdão divino. Assim, os monges fizeram o ritual budista apropriado para a ocasião e perdoaram os dois amantes das suas falhas passadas, fazendo-os ascender aos céus.

 

Toda esta lenda é relativamente simples, mas quem for visitar o seu manuscrito original japonês, algo que pode ser feito nesta página, verá que toda a história está ilustrada de uma forma muito bonita, com uma simplicidade que torna esta lenda de Kiyohime e Anchin muito apelativa, apesar de poder parecer um pouco estranha para os leitores ocidentais, em virtude da inusitada e inesperada transformação da apaixonada. Fora isso, quase que parece uma história infantil...

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A lenda de Sentaro vem-nos, como o próprio nome do herói poderá dar a entender, do Japão, mas dá-nos uma lição que poderá ser comum para toda a humanidade.

A lenda de Sentaro

Sentaro era um homem muito rico e vaidoso, que não tinha qualquer problema na vida. Porém, um dia começou a contemplar o problema da morte e a ideia de que todos temos de falecer algum dia. Assim, tendo ouvido dizer que os hermitas viviam para sempre, decidiu tornar-se um; foi a um templo, rezou durante sete dias sem nunca parar, e então apareceu-lhe, pelo mais completo milagre, um deus à sua frente. Essa figura divina depressa lhe apontou que Sentaro gostava demasiado dos bens materiais para conseguir tornar-se um verdadeiro hermita, mas decidiu conceder-lhe um outro desejo, transportando-o magicamente para a lendária Terra da Vida Perpétua.

Quando lá chegou... Sentaro depressa descobriu que todos os habitantes da Terra da Vida Perpétua desejavam constantemente a morte, já estando mais que cansados do peso da idade e de não terem nada de útil para fazer. Ainda tentou adaptar-se a esse local, viveu lá uns "breves" 300 anos, mas depressa deu por si a rezar para voltar a casa. Tentando regressar, caiu ao mar e estava prestes a ser comido por um tubarão quando... acordou! Tudo tinha sido um sonho, e ele ainda estava no templo, mas aprendeu a sua lição e emendou o seu comportamento.

 

Apesar de ainda estar muito presente na nossa sociedade de hoje, esse desejo intemporal de uma vida eterna, jamais devemos esquecer-nos que são incontáveis os mitos e lendas do passado que nos alertam para os perigos de um pensamento semelhante ao de Sentaro. Deste o mito de Titono até determinados episódios de The Twilight Zone, uma vida eterna seria, sem qualquer dúvida, muitíssimo aborrecida, e é disso mesmo que histórias como estas nos alertam. Não devemos temer a morte, ela é apenas natural a todos os seres vivos. Ou, como um dia foi dito ao famoso Gilgamesh:

Deve ter-te sido dito que a morte é a essência de ser humano. Deve ter-te sido dito que isto seria o resultado de cortarem o teu cordão umbilical. O mais negro dia dos seres humanos agora aguarda por ti. O local solitário agora aguarda por ti. A imparável torrente agora aguarda por ti. A batalha inevitável agora aguarda por ti. A batalha desigual agora aguarda por ti. O conflito de que não podes escapar agora aguarda por ti. Mas não deves ir para o submundo com o coração zangado (...)

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O mito de Yama, de que falamos aqui hoje, é digno de nota por se referir a uma figura originalmente da Índia (e do Hinduísmo), mas que por via do Budismo depois foi transportada para vários outros locais, nomeadamente a China e o Japão, sofrendo algumas alterações ao longo dessa transmissão. Podemos tentar explicar o seu papel (quase) comum na mitologia indiana, chinesa e japonsa de uma forma muito sucinta.

O mito de Yama

Originalmente, a figura que ficou conhecida como Yama já estava associada ao reino dos mortos, com pelo menos uma tradição a dizer que ele tinha sido o primeiros dos mortais a falecer, conhecendo por isso já bem o reino que viria a administrar. Depois, o seu papel vai evoluindo - na China e no Budismo, sob o nome de Yanluo Wang, ele parece tornar-se mais uma figura que definia e controlava as reencarnações, decidindo o que acontecia a cada pessoa após a sua morte, não só em termos de potenciais castigos, mas também definindo sob que forma as pessoas iriam reencarnar. E é nesse papel que o encontramos no Nihon Ryoiki, uma compilação japonesa de milagres budistas do século IX da nossa era.

 

Referimo-nos concretamente a essa fonte literária porque a presença de Yama - mais conhecido no Japão como Emma-O - na mesma é estável, repetida e apresenta sempre o mesmo papel - quando alguém morre é transportado para um enorme e belíssimo palácio, em que os bons actos feitos em vida são contrastados com as realizações menos boas. Por exemplo, numa determinada história dessa fonte literária, é apresentado um homem que fez muitos bons actos na sua vida, mas que também venerou "os deuses chineses" (por oposição a seguir os preceitos budistas, supõe-se). Assim, quando o falecido chega ao tribunal de Yama, surgem versões antropomórficas dos dois grupos de actos, que se debatem pela sua salvação ou condenação; às tantas, o juíz considera que o caso era muto difícil de julgar, optando então por absolver o réu dado este ter praticado mais bons actos do que negativos, e ele até foi trazido de volta à vida, emendando depois o seu comportamento anterior (i.e. passou então a seguir todas as ideias do Budismo).

 

O mito de Yama é, portanto, o de um juíz imparcial, quase humano nas suas forças e fraquezas, que procura com a sua justiça recompensar - ou punir - os actos que as pessoas realizaram nas suas vidas. Face a figuras ocidentais, como o Minos grego ou o Deus cristão, talvez a sua grande fraqueza seja mesmo o seu notável carácter humano, visto que depende de testemunhos - mais do que uma qualquer espécie de poderes místicos - para formular as suas decisões. Talvez até já se tenha enganado, culpando um justo por um pecador, ou deixando o segundo escapar? Não encontrámos qualquer fonte directa em que isso tenha acontecido, contrariamente ao que aconteceu em mitos como os dos Gregos (e.g. recorde-se, por exemplo, a forma como Sísifo enganou os deuses dos mortos), mas é provável que até exista alguma história que siga essas linhas - recorde-se, por exemplo, que no Dragon Ball Z os falecidos  se cruzaram repetidamente com esta figura, que nem sempre soube como julgar muito bem as suas acções em vida...

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A lenda de Kuchisake-onna é japonesa, mas talvez seja tão actual hoje como no dia em que primeiro foi contada entre os nativos desse país. É um pouco difícil saber quando nasceu verdadeiramente, mas tem um aspecto cultural muitíssimo interessante, que até motiva esta publicação de hoje. Mas já lá iremos!

A lenda de Kuchisake-onna

Imagine-se que, nos dias de hoje, vamos pela rua fora e encontramos uma mulher como a da fotografia acima. Isso parece-nos completamente normal, face à situação actual do Covid-19, mas ao mesmo tempo é uma espécie de tradição cultural japonesa, que as pessoas que estão constipadas utilizem esse tipo de máscara para protegerem os outros (infelizmente, é uma moda que nunca pegou em Portugal - talvez venha a ser instituída no futuro?). E, nesse sentido, Kuchisake-onna é quase só uma mulher que usa máscara na rua... e raramente a tira em público, dando um excelente exemplo a seguir nestes tempos de Covid-19.

 

Porém, Kuchisake-onna também esconde um terrível segredo. Conhecem-na, vão falando com ela, e um dia ela pergunta-vos, sem nunca tirar a máscara, "Achas-me bonita?"

Se a resposta for negativa, ela rapidamente vos ataca de uma forma brutal, potencialmente até causando a vossa morte.

Mas, se a resposta for positiva, ela remove a máscara, mostrando uma boca largamente desfigurada (como a do Joker/Coringa, para quem conhecer as histórias do Batman), e repete a pergunta. E depois, seja qual for a resposta, sofrem sempre um ataque, de uma forma mais ou menos chocante. A única solução, segundo lemos, é fugir - fugir, sem jamais lhe responder a alguma dessas duas perguntas!

 

A lenda de Kuchisake-onna é, talvez mais que tudo, uma que expressa um grande medo inter-cultural do desconhecido. Aquele mesmo medo que, face a um caminho obscuro numa noite sombria, nos faz voltar para trás... o medo de não sabermos o que esconde, o que pode vir a esconder, algo que não conseguimos ver com os nossos próprios olhos. E se o uso de máscaras deste tipo no Japão já tem mais de um século, é relativamente novo na cultura ocidental, sendo provável que pequenas histórias semelhantes à apresentada aqui hoje comecem, agora, a surgir entre os mitos urbanos ocidentais. Só o tempo o dirá.

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A lenda de Baku é Japonesa. Diz, essencialmente, que quando os deuses acabaram de criar todas as outras criaturas animais, viram que lhes tinham sobrado algumas "peças". Como não sabiam muito bem o que fazer com elas, decidiram juntá-las todas numa só criatura - e assim nasceu este estranho animal.

O Baku a proteger uma criança

O Baku tem uma tromba de elefante, um corpo parecido com o do leopardo, e outras características menos fáceis de discernir, mas a principal razão para contarmos a sua história aqui, hoje, passa não tanto pelo estranho físico desta criatura lendária, mas pela sua característica mais famosa, que até gerou o Pokémon Drowzee - diz-se que este animal tem a capacidade de devorar os sonhos nocturnos das pessoas. Ou seja, imagine-se que têm um pesadelo, tudo o que têm de fazer é evocar esta criatura três vezes seguidas, com uma frase que pode ser resumida como "Baku, Baku, por favor come o meu sonho!", e ele tomará a tarefa de se livrar do vosso pesadelo, permitindo-vos que continuem a dormir de forma muito mais calma.

 

Será que funciona? Face aos estranhos temas dos últimos dias decidimos tentá-lo, e podemos então garantir que é mesmo verdade, que funciona. Não irão ver um Baku, em si mesmo, mas através da sua intervenção poderão ter algumas noites muito mais descansadas, enquanto ele vos protege de algum sonho menos bom. Mas cuidado (!) - se for invocado incorrectamente, ou na altura errada, ele também poderá comer os vossos bons sonhos, pelo que convém utilizar este processo somente se andarem a ter muitos pesadelos recentemente...

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